Era Natal de 1995. Apesar de menor de idade, eu, para comemorar esta importante data, tomava champagne. Eu contava com 13 anos. Estava jogando Donkey Kong em um vídeo game Super Nintendo que me fora alugado pelo meu avô (que eu chamava de pai). Ele, aliás, que era caminhoneiro, estava, naquele dia, de saída para mais uma viagem.
Eu, na verdade, não gostava de festividades. Nunca fui afeiçoado ao Natal, réveillon ou qualquer outro evento comemorativo sazonal. Detesto, aliás, festas juninas, por exemplo. As gritarias uníssonas, as comidas típicas… enfim: tudo que gere algazarra, me faz seguir no sentido contrário.
Mas, reconheço que há, sim, importância em nós, enquanto pais, de semear um pouco do espírito natalino em nossos filhos. Tenho hoje quarenta e três anos e ainda me recordo daquele Natal ocorrido há quase trinta anos. E não o guardo na memória apenas pela champagne e pelo vídeo game.
Apesar da minha relutância em aceitar, havia ali uma fagulha de clima natalino. Havia uma atmosfera própria da iminência da chegada de mais um ano novo. Existia a esperança de dias melhores, mesmo que para uma criança que nem sabia direito o que isso realmente significava, ou queria dizer.
Mas continuo, apesar de velho e ‘‘negacionista natalino’’, sentindo esta modesta e imperceptível efervescência. Encontro-a, hoje, no olhar do meu filho ao fitar seus olhinhos vitrais na árvore de natal da nossa casa, vislumbrando as bolas coloridas, as luzes e demais enfeites. Mesmo bagunçando-a quando retira os enfeites, sinto que, em algum momento da sua vida, assim como eu, ele sentirá falta desses momentos com a sua família.
Talvez, assim como o meu pai (avô), quando ele tiver treze anos, eu não estarei mais aqui. Mas gostaria de ser sabedor de que promovi, juntamente com a sua mãe, momentos de alegria, risos, amor, felicidade própria do Natal de Cristo, que não rejeita presentes, mas são plenamente dispensáveis, posto que não são os valores que conquistam, mas os momentos que dividimos.
Não era o vídeo game nem a champagne, era o estar em um lar que me trazia a paz e o clima do Natal de Cristo em 1995. Era saber que, ainda que ausente momentaneamente, meu pai voltaria para casa. Era por saber que, ao quarto contiguo, minha mãe (vó) estava presente, descansando para mais um dia de labuta, de luta para me criar.
Gostaria de promover um pouco dessa vivência para o meu pequeno; transferir semelhante atmosfera. Que ele possa sentir o que eu senti e até hoje não esqueci. Feliz Natal – adiantado -, amigo leitor!
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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