Lembrar para jamais esquecer

05/09/2026

 

 

Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz isso, com a competência do bom jornalista que é, supostamente na boa intenção de ressaltar aspectos relevantes da história do município, tradicionalmente indiferente, diga-se, por dever de consciência, ao que jaz esquecido sob a poeira do tempo, num tipo de condenação ao esquecimento de fatos, acontecimentos e pessoas que marcaram o desenvolvimento da cidade ao longo de sua história.

Há poucos dias, por exemplo, teceu oportunas considerações sobre a recuperação do Teatro Pedro Lima Verde. Fez o mesmo, em seguida, sobre o Museu Iguatuense da Imagem e do Som, e, mais recentemente, acerca da praça Alcântara Nogueira.  Presta o jornalista e secretário, com isso, reitero, importante serviço no campo da cultura e da inteligência a uma cidade de grande prestígio do estado do Ceará, cuja memória, como resta claro, infelizmente, necessita de cuidados a fim de não perder mais ainda de sua identidade um tanto combalida e de sua vocação intelectual e artística.

Ao fazer este registro aqui, no entanto, como me atrevendo contra incompreensões, tomo a liberdade de apresentar ao senhor Honório Barbosa uma sugestão: seria positivo, ao meu ver, que inserisse nas entrelinhas de seus importantes comentários o nome daqueles que contribuíram de alguma maneira (quando não decisivamente) para a existência imaterial ou simbólica dessas realizações, num tipo de reconhecimento do trabalho levado a efeito com o mesmo propósito que move agora o distinto jornalista: o de resgatar a memória cultural da cidade, revitalizando aspectos tradicionalmente relegados a segundo plano (ou esquecidos) de sua notável história, dos valores simbólicos e representativos de sua gente e de sua vitalidade coletiva.

Os três exemplos citados há pouco, e tantos outros, por certo de maior alcance e significação, para ilustrar o que digo, nasceram de iniciativas deste articulista quando vereador de Iguatu por dois mandatos, muito embora ignorado nas aludidas postagens do jornalista e atual secretário de cultura do município.

Ao reclamar maior atenção para com os iguatuenses que dedicaram muito de sua vida a buscar alternativas de ação para alguns dos nossos maiores problemas em termos culturais, o apagamento de parte significativa da história do município, entre eles, faço-o em respeito aos que, pelo amor à cidade, aos conterrâneos, aos livros, filmes, edificações arquitetônicas, música, folguedos, tradições populares de diferentes matrizes e manifestações culturais as mais diversas, a política inclusive, valorizaram essas evocações, colocando-as diante dos olhos obnubilados de nossa sociedade como um patrimônio que jamais deveria ser esquecido: ocorre-me recordar de Wilson Lima Verde, Edson Luiz Gouveia, Antônio Nogueira, Júlio Braga (já falecidos), de José Hilton Montenegro, do próprio Honório Barbosa, de Ossian Leal Nogueira, gente da mais alta importância a quem dedico aqui a minha melhor deferência e o meu particular carinho.

Num momento marcado por tantas contradições, pode parecer um atrevimento clamar por maior atenção para com a arte e a cultura. Contudo, bem na linha do que nos advertia o filósofo Kierkegaard, “Atrever-se, assumir riscos, é perder pé momentaneamente. Não arriscar-se é perder-se a si próprio para sempre”.

A um só tempo, desse modo, atrevo-me e arrisco-me ao improvável, quem sabe à indiferença e ao descaso, mas nunca me permitirei perder-me de mim mesmo. Nunca é demais lembrar: morre um povo quando morre a sua memória.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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