Livros da Ilha Deserta

25/07/2020

Vira e mexe, leio nos jornais sobre quais livros, filmes e discos o autor do texto levaria para uma ilha. É provável que a ideia de escrever sobre o tema, e que quase sempre nasce de uma curiosidade formalizada a partir de pergunta dos leitores, terá alguma relação com a pandemia do Covid-19. Explico-me: a doença, condicionando-nos ao isolamento como a possibilidade mais racional para evitar a contaminação e os riscos concretos que a acompanham, desencadeou sobre as pessoas percepções desconfortáveis de que, muitas vezes, a solidão é algo inevitável e de que o melhor é buscar alternativas para o caso de virem a se tornar uma realidade em nossas vidas.

Pois bem. Isso me trouxe ao coração (é esta a etimologia do verbo “recordar”) uma experiência da juventude que recebi com ternura e delicada saudade: em meu tempo de rapazinho, quando contava pelos 14 anos, as mocinhas costumavam pedir que “respondêssemos” aos seus “disparates”, que outra coisa não eram que um tipo de caderno, organizado como um longo questionário, através dos quais éramos conduzidos a revelar nossa intimidade. As perguntas, claro, iam das mais bizarras tolices, a exemplo de expor as nossas preferências sobre a cor da pele e do cabelo das mulheres desejadas (rigorosamente isso, desejadas!) às mais profundas, como saber a nossa opinião acerca da existência ou não de Deus. Uma coisa, invariavelmente, um “disparate” que se prezasse nos impunha como questão incontornável: “Que livros você levaria para uma ilha deserta? Escusado dizer: naquela época, diferentemente de hoje, os jovens líamos muito.

Como uma coisa puxa outra, fiquei a pensar, não nos livros que levaria àquele tempo, em cuja relação, por certo, estaria Saint-Exupéry. Digo melhor: estaria “O pequeno príncipe”, que todos éramos muito próximos da Raposa, do Astrônomo, do Vaidoso, do Guarda-Chaves e seus companheiros de história.

Mas o leitor deve estar curioso por saber: que livros levaria eu para a minha ilha da solidão? Vá lá, que nunca fui de tergiversar diante das grandes questões. Não sem antes, por óbvio, em se tratando de quem lida com a literatura com alguma intimidade, observar que sou um volúvel ledor de livros: mudo de opinião em face desses seres amados ao sabor de minhas subjetivações: hoje, triste e macambúzio; amanhã, alegre e livre como um pássaro na invernada. É natural, assim, que as minhas escolhas transitem do paraíso de Milton ao inferno de Dante.

E o leitor, já se impacientando, percebo, haverá de indagar: ô chatonildo, que livros você levará para a sua ilha deserta (de onde talvez prefira que você jamais possa voltar!)? Calma, meu queridíssimo leitor, que é para você que escrevi esta crônica.

Escolhi, e já os separo do conjunto da estante, os dez seguintes livros, começando pela literatura propriamente dita: 1. Dom Quixote, de Miguel de Cervantes; 2. A divina comédia, de Dante Alighieri; 3. Madame Bovary, de Gustave Flaubert; 4. O idiota, de Fiódor Dostoiévski; 5. Dom Casmurro, de Machado de Assis; 6. A montanha mágica, de Thomas Mann; 7. O texto da peça Hamlet, de William Shakespeare; 8. Guerra e paz, de Lev Tolstoi; 9. Os miseráveis, de Victor Hugo; 10. A Rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade.

Tenho dito, antes que mude de opinião!    

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Os Sonhadores*
Os Sonhadores*

    “Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”. Os versos, extraídos da letra da canção ‘Pra não dizer que não falei de flores’, composta por Geraldo Vandré, em 1968, constituem o estribilho que chamou à luta os...

O vinho, o voto e a verdade
O vinho, o voto e a verdade

    “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ talvez as derradeiras noites de luar”!   Os versos acima são de Gilberto Gil, e foram extraídos da letra de Lunik 69, que faz referência à ambição do homem norte-americano...

Tristes Partidas
Tristes Partidas

    Num momento tão delicado da vida nacional, estando o país sob ameaças concretas de trágico retrocesso político e desconstrução do Estado Democrático de Direito, é lamentável que dois grandes nomes da cultura brasileira tenham nos deixado: Aracy do Amaral...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *