Louvação ao poeta amigo

04/10/2025

“O poeta é um fingidor/finge tão completamente/que chega a fingir que é dor/a dor que deveras sente”, são os versos iniciais do poema Autopsicografia, do poeta português Fernando Pessoa. É com eles que abro a coluna de hoje, singela louvação a Cícero Braz de Almeida.

O meio da semana em Fortaleza foi marcado, no campo da literatura, pelo lançamento do livro “Porta Estreita”, de Cícero Braz de Almeida. O local não poderia ter sido melhor, o salão de eventos do novo “Docentes & Decentes”, leve-se em conta que o nome do recém-inaugurado restaurante remete a uma história de boemia que lembra, por exemplo, os velhos tempos do “Cais Bar” e do “Estoril”, cenários da melhor e mais notável convivência de artistas cearenses.

A exemplo dos dois aclamados epicentros de noites inesquecíveis, o “Docentes & Decentes” traz à memória tempos que entraram na história de nossa cultura popular.

Cenário de grandes festas da literatura, da boa convivência e do repertório musical mais refinado, lá, por certo, Cícero Braz terá gestado em sua alma prolífica muito do que agora publica no seu belíssimo e mais novo trabalho, objeto da entusiástica recepção por parte de estudiosos da literatura, escritores, músicos, cantores, compositores e, o que é mais importante, conforme destacou em seu rápido e comovente depoimento, amigos que Braz conquistou do alto de seu notável carisma como pessoa humana coberta de luz.

Tenho pela arte de Cícero Braz de Almeida uma particular admiração. Trata-se de artista de múltiplas habilidades: letrista, poeta, prosador, instrumentista e intérprete de reconhecido talento, por cujas searas trafega com igual segurança e apurado gosto estético.

Agora, com o livro “Porta Estreita”, aposta num arco literário mais exigente (a literatura “livresca” propriamente dita), posto que, no plano do conteúdo, a coletânea reedita temas conhecidos de sua trajetória como compositor e intérprete

É no plano da expressão, portanto, que se pode perceber no livro suas incursões mais elaboradas, o jeito pessoal de construir o poema. Explico melhor: Por ser músico, e dos bons, sua poesia dá a ver um domínio de linguagem musical extremamente sedutor, colocando-se muito acima da dimensão meramente semântica do texto, mesmo quando, de modo consciente, opta por descumprir padrões de versificação tradicionais.

É, portanto, a força musical que sobressai, e o poema derrama-se em melodiosa experiência sonora, sob cuja matéria impera um rigoroso senso de medida, em que pese alguma irregularidade do estilo, revelando o criador cônscio de suas potencialidades e contenções — estas, próprias daqueles que não se atiram a aventuras enquanto escritores; aquelas, muito maiores e mais frequentes no conjunto de sua produção e de suas inquietações artísticas.

Como já disse em comentário a outro de seus livros, Cícero Braz não é apenas um artista versátil e eclético, desses que surgem vez e outra nos meios literários. Se o artista faz bem tudo o que faz artisticamente falando, a pessoa humana é singular, um tipo de que andam carentes os tempos de hoje.

Isso para não descer a curiosidades, como o fato de ser ele um notável conhecedor da música popular brasileira, capaz de, com sua memória prodigiosa, ao primeiro acorde, para além de identificar a música, dizer quem a compôs, e, não raro, em que circunstâncias o fez.

Sob este aspecto, é aula escutar o que tem sempre a dizer sobre os bastidores da MPB, os encontros e desencontros de grandes nomes do cancioneiro popular, suas impensáveis excentricidades, seus mistérios íntimos mais inconfessáveis, suas intensas e mal resolvidas paixões, suas conquistas e seus fracassos mais comoventes. Aula e prazer sem nome, acrescento.

Numa noite de beleza radiante, para um contingente de boêmios e frequentadores históricos, como a renascer das cinzas, qual fênix, o novo “Docente & Decentes” foi palco de uma festa memorável, e a poesia de Cícero Braz objeto de sensibilizadora aclamação.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

 

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