Luta, e serás livre de espírito

13/06/2026

 

 

Para os brasileiros a Copa do Mundo começa hoje. É verdade que não temos um time capaz de suscitar a nossa confiança na possibilidade do hexacampeonato. Longe disso. Mas é o Brasil, celeiro de grandes craques. Em 1970, assim como hoje, saímos daqui desacreditados. Não fomos além de 1 a 0 contra a Áustria, no Maracanã, com um sofrido gol de Pelé. Pior: pouco antes havíamos empatado com a inexpressiva equipe do Bangu, em Moça Bonita, depois de iniciarmos perdendo com um gol de Paulo Mata. Jairzinho empatou para o escrete canarinho.

O resultado precipitou o que todos já esperavam: a exoneração de João Saldanha, resistente a ceder às pressões do governo Militar, nomeadamente do então presidente Médici, que cobrava do técnico brasileiro a convocação do centroavante Dario, do Clube Atlético Mineiro.

O que ocorreria em seguida, com o então botafoguense Zagallo à frente da seleção, todos sabem: o Brasil faria a mais brilhante campanha em copas do mundo e sagrar-se-ia tricampeão mundial.

Aos mais jovens, que não tiveram a oportunidade de ver atuar a melhor de nossas seleções, é mais que oportuno assistir à série “A Saga do Tri”, disponível na Netflix.

Não se trata de um documentário, na linha do que se vê vez e outra na TV sobre a Copa de 70.

É ficção realizada a partir de fatos reais vistos à luz da imaginação dos diretores Paulo Morelli e seu filho Pedro Morelli. Uma espécie de “docudrama” em que os realizadores buscam reconstituir os memoráveis lances que marcaram a trajetória irrepreensível da seleção na conquista do tricampeonato.

Sob este aspecto, o que parecia improvável, acontece: as jogadas-chave de cada partida, os dribles e gols são reconstituídos quase à perfeição. A famigerada cotovelada de Pelé no queixo do zagueiro uruguaio, bem à altura de sua genialidade, é perfeita.

Se isso se tornou possível em grande parte pelos recursos tecnológicos disponíveis na atualidade, não é sem razão que se deve aplaudir os procedimentos da cinematografia propriamente ditos: escolha de planos, movimentação de câmeras, enquadramentos e perspectiva de tomadas são irretocáveis, o que resulta num trabalho cinematográfico mais que bem sucedido.

A beleza das imagens, dando ao espectador uma percepção privilegiada do que terão sido esses acontecimentos inesquecíveis da conquista do Tri, vale por si só, mesmo quando a imaginação acrescenta elementos estéticos que tornam os fatos em que está plasmada a série muito mais sedutores do que, muito embora fascinantes, tem sido proporcionado ao telespectador em registros jornalísticos da referida Copa.

Ao lado disso, a completar o conjunto de procedimentos que fazem parte de qualquer realização fílmica, a direção de elenco, a atuação dos atores centrais da série e, principalmente, o roteiro, são de altíssimo nível, resultando num trabalho que pôs por terra toda a desconfiança do projeto inicial.

Não é muito dizer que nunca antes se fez no audiovisual brasileiro uma reconstituição tão bem-sucedida de competições esportivas: pode-se falar de poetização de fatos, de verdade explorada artisticamente, e não de ficção em sentido puro.

Sob este aspecto, ainda que não se possa afirmar a exatidão do que terá acontecido nos bastidores, no fora de campo literalmente falando, é notável a versão apresentada pela série acerca do que, por exemplo, terá pontuado a posição dos jogadores, da comissão técnica e do presidente da CBD (era como se denominava a atual CBF) perante o governo Militar.

Aqui, ressalte-se, ganha visibilidade o que em grande parte se sabia sobre as razões que levaram à demissão do técnico João Saldanha, comunista de carteirinha e figadal inimigo do regime autoritário implantado no país com o golpe de 1964.

Mas o roteiro vai mais longe: é comovente a situação que envolve a figura de Pelé, não raramente apresentado como cúmplice indireto do que se verificava no Brasil durante a ditadura. A uma dada altura da narrativa, já bem perto da estreia da seleção na Copa do Mundo, talvez precipitadamente, tem-se a impressão de que o Rei cedera aos apelos do presidente Médici no sentido de “vender positivamente” o regime. Médici telefona para Pelé e exige dele cumplicidade.

Essa impressão, felizmente, em favor do craque brasileiro, vai se desfazendo com o desenrolar da história, e o espectador é levado a concluir que Pelé, aos 29 anos, tão-somente se mostrara temeroso de que algo de ruim lhe pudesse ocorrer e à sua família. As tomadas em que Rose, sua mulher, aparece grávida, em sua casa, no Brasil, servem para desconstruir a ideia de cumplicidade do jogador com os horrores praticados pelos militares no país. É oportuno que se evidencie a indignação de alguns dos nossos craques contra o regime e a prática recorrente da tortura, do assassinato e indizíveis coisas mais.

É fato, sob esse aspecto, que a minissérie poderia ter explorado com maior nitidez a ditadura e os horrores levados a efeito em nome de um nacionalismo fascistóide, a exemplo do que se vê hoje no Brasil. É de se concluir, no entanto, que, aos olhos dos diretores, a ditadura deveria ser explorada apenas como pano-de-fundo, um quadro intencionalmente borrado dos fatos políticos que jamais se deverá esquecer.

Além disso, deve-se destacar a presença de João Saldanha no desenrolar de toda a produção. Exemplarmente interpretado por Rodrigo Santoro, numa atuação de encher os olhos, a personagem ocupa a melhor dimensão dramática da minissérie: sua firmeza de caráter, o seu amor pelo Brasil, a sua coragem para enfrentar os poderosos de plantão, compõem o que existe de mais relevante do ponto de vista dramático.

A sequência em que o jornalista se encontra, noite alta, com o técnico Zagallo (Bruno Mazzeo, em atuação excepcional), é provavelmente a mais bela da minissérie, pelo brilhantismo do trabalho dos atores e densidade da curva dramática das personagens, a que se somam o irretocável trabalho de câmera e qualidade do diálogo: “… Luta e serás livre de espírito, Não baixes a cabeça, jamais!”., diz Saldanha a um Zagallo atormentado e vacilante. A iluminação, parcialamente encoberta pela fumaça do inseparável cigarro de Saldanha, como a lembrar um “sfumato”* de Da Vinci, é sublime — uma imagem que sentimos vontade de recortar para e expor num quadro de parede.

“A Saga do Tri”, no todo, para muito além do que se julgava possível, é trabalho cinematográfico que condiz com a histórica conquista da Seleção Brasileira em gramados mexicanos, e se coloca, com mérito, entre as boas homenagens ao melhor escrete brasileiro de todos os tempos.

No mais, sonhar é preciso, como professa em cena memorável da série um grande brasileiro chamado João Saldanha!

 

*Técnica pictórica clássica que consiste em criar transições suaves e graduais de cores e tons, desfazendo os contornos nítidos da imagem.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

 

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