Nas sombras de Poe

12/07/2025

Na pacata cidade de Antera, onde as calçadas rachadas guardam segredos e os postes rangem como velhos ossos ao vento, vivia Silvério, um homem cuja sina era afogada em goles fundos de cachaça barata. Costumava ocupar sempre o mesmo canto do bar do Genésio, onde murmurava frases truncadas, encarava o vazio e, entre um gole e outro, iniciava suas famosas digressões — tão profundas quanto indecifráveis.

“É Poe… tudo é Poe…”, dizia, com os olhos arregalados de um profeta maldito.

O povo ria, achando que era delírio alcoólico. Mas havia algo ali, uma densidade em suas palavras, uma sombra que se espraiava sobre sua alma. Numa noite de chuva fina, Silvério bebeu até que o mundo girasse em câmera lenta, e foi então que a realidade se dissolveu como tinta em água.

Primeiro, acordou num quarto úmido, de paredes em ruínas. Um gato preto o observava com olhos de brasa, sentado em cima de uma garrafa vazia. “Fique longe de mim, criatura!”, gritou Silvério, mas o gato apenas miou, um som que mais parecia uma gargalhada soturna. Tentou fugir, tropeçou, e ao olhar para trás, viu a parede se abrindo em carne viva — dali saía um corpo com um buraco no crânio. Era o homem que ele jurava ter enterrado em pensamento numa de suas noites mais negras.

De repente, o quarto virou neblina e se desfez.

Agora estava diante de uma casa à beira do colapso — a Casa de Usher. Um homem pálido o conduziu para dentro, murmurando que a irmã estava “apenas dormindo”. Silvério queria gritar, dizer que conhecia aquele desfecho, que não havia sono, mas sim morte — e que a morte ali não dormia, acordava. Ele viu a mulher sair do caixão como se rasgasse um lençol de loucura, os olhos dela encontrando os seus: “Você também não desperta, bêbado. Só dorme acordado.”

Mais um gole imaginário, e as paredes desabaram.

Silvério cambaleava por um corredor escuro, os passos ecoando como tambores de um coração enterrado. O som vinha do chão. Agachou-se, pôs a orelha contra as tábuas — tum-tum, tum-tum! “Confesse, miserável!”, berrava uma voz, mas ele não sabia se vinha de fora ou de dentro de si. Era o som da culpa? Ou o coração do próprio Silvério tentando confessar pecados que nem ele lembrava mais?

A última visão veio como um trovão: um corvo empoleirado em sua janela, sob a luz da lua, sussurrando uma única palavra: “Nunca mais.” “Nunca mais o quê?”, perguntou Silvério. “Nunca mais a sobriedade. Nunca mais o esquecimento. Nunca mais a paz.”

Na manhã seguinte, Genésio o encontrou estirado na sarjeta, olhos abertos, rindo e chorando ao mesmo tempo.

— Ele tá falando com o corvo de novo — murmurou Genésio, cobrindo o homem com um pano.

Silvério não morreu naquela noite, mas nunca mais voltou a ser o mesmo. Agora, quando fala, seus olhos vasculham um mundo que ninguém mais vê. Dizem que, à noite, ele ainda viaja para os contos de Poe. E quem passa por perto do seu banco no bar pode jurar ouvir, entre um gole e outro, um sussurro grave vindo do vazio:

“Lenora…”

E então o silêncio. E então… nunca mais.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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