A propósito do que vimos na terça-feira, 14, na heroica virada da Seleção da Argentina sobre os ingleses, e o que a ela se seguiu, gostaria de fazer nesta coluna uma intencional divagação.
De resto, todos sabem: identidade é como se define o conjunto de características, valores, crenças, memórias que dizem quem você é em sua singularidade. Desse modo, cada homem, individualmente, tem a sua identidade pessoal, que é a forma como se percebe e se faz perceber, com suas idiossincrasias, suas escolhas, sua autoestima e sua capacidade de autoconstrucão. Ao lado disso, exercendo decisiva influência na personalidade de cada um, há o que se pode entender como identidade social ou cultural (a família, a nacionalidade, a profissão, a religião etc.), formada e moldada pelas relações interpessoais, pela história, pelos costumes e tradições.
Nessa perspectiva, pois, é que se pode falar da identidade de um povo, o caráter nacional que o distingue de outros povos.
Ao longo dos tempos, nos meios acadêmicos e fora deles, é significativa a produção de pensamento acerca desse tema, na mesma medida tão sedutor e tão polêmico.
No Brasil, nos últimos cem anos, para não se ir tão longe, inúmeros intelectuais dedicaram-se (ou se dedicam) a tentar compreender padrões de comportamento, perfis psicológicos e traços de cultura que lhes permita fixar, com alguma segurança, o que se pode definir como o “caráter nacional brasileiro”.
As teses, com raras exceções, são as mais desencontradas, quando não estapafúrdias: de tristes e melancólicos, indisciplinados e oportunistas, benevolentes e altruístas, cordiais e ingênuos, preguiçosos e fortes, covardes e destemidos, criativos e versáteis, macunaímicos, sonhadores, passionais, entre tantas e tantas adjetivações, os rótulos refletem, com suas contradições, a complexidade da matéria e a insustentabilidade de algumas hipóteses, muitas delas imortalizadas em livros considerados clássicos: “Retrato do Brasil”, de Paulo Prado; “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre; Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda; “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Júnior; “Os Donos do Poder”, de Raimundo Faoro; “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro, para mencionar uns poucos que me ocorrem agora.
Desse modo, se fascinantes e polêmicas, indispensáveis outras, essas teses constituem diferentes possibilidades de compreensão do que somos, nunca uma conclusão objetiva acerca do que se possa definir como identidade do povo brasileiro.
Na contramão do que professa o discurso nacionalista, na linha do ufanismo de Afonso Celso, ele mesmo impregnado de contradições, o que verdadeiramente“não somos”, tenhamos coragem de dizer, é o povo de todo ordeiro, bem intencionado e irretocavelmente bom, cantado em prosa e verso na literatura e na música popular brasileira.
Pura mitologização, idealização estreita, essa mania de atribuir qualidades inexistentes a seres, lugares e conceitos.
A tola animosidade historicamente alimentada contra os argentinos, para retomar o fio condutor da coluna, diz bem do nosso ciúme e da nossa inveja, da fragilidade de nossas ideias e míticas projeções acerca do que pensamos ser — a política hodierna e o futebol a nos dar, sobre isso, provas cabais e irrefutáveis.
Nas quatro últimas copas do mundo de futebol, a Argentina participou de três finais, sendo campeã em uma delas. A capacidade de superação, o espírito de coletividade, a consciência representativa, a valentia e a inteligência emocional (hoje chamada de agilidade emocional) dos jogadores argentinos, emblematicamente demonstrada nos dois últimos jogos, antes deveriam ser atributos admirados pelos brasileiros, um tipo de exemplo no qual deveríamos nos espelhar no caminho desafiador de reconquista das nossas melhores tradições.
Ao contrário: deixamos invariavelmente falar o coração piegas, o sentimentalismo enraizado, elemento fundador de nossa personalidade pátria a um só tempo acomodada e desinteligente.
Os gestos arrogantes e deseducados, não raro racistas, que se veem nos estádios por parte de alguns argentinos, não retratam a Argentina e sua gente, sua cultura, seus talentos no campo da literatura, da música e do cinema.
Não faz muito, para que se tenha uma ideia do que digo, Buenos Aires tinha mais bibliotecas que o Brasil inteiro.
A Argentina de Che Guevara e Evita Peron; de Mercedes Sosa, Carlos Gardel e Astor Piazzolla; de Jorge Luis Borges, Bioy Casares e Júlio Cortázar; de Antonio Bernin e Marta Minujín; de Ricardo Darín, Joan José Campanella, Damian Szifrón e Lucrecia Martel. A Argentina de Diego Maradona e Lionel Messi.
Do papa Francisco. Do tango, do abraço fechado, da melancolia doce, da sensualidade, do bandoneón.
A Argentina das Madres de Plaza de Mayo, que tiveram seus filhos desaparecidos pelo terrorismo de Estado, durante a ditadura militar no país (1976-1983), com seus lenços brancos na cabeça, “fraldas” a lembrar seus niños cruelmente assassinados.
Até quando a nossa capacidade de análise e crítica continuará sendo conversa de boteco, debate de torcedores enlouquecidos?
Em termos de futebol, é preciso reconhecer, já faz muito tempo os argentinos têm nos dado lições, e não aprendemos, irredutíveis, resistentes às mudanças estruturais de que carecemos na forma de pensar e agir — nos campos de futebol e na vida.
Do alto de sua galhardia, que os argentinos vençam na decisão de domingo, reeditando o que fizeram no Catar há quatro anos.
É o exemplo em que um dia (não seja tarde!) haveremos de mirar.
Eu tenho dito.
*Livro de Dante Moreira Leite em que o autor examina as raízes conceituais do caráter brasileiro.
Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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