O caso do Assassino dos Pães – parte 2

26/04/2024

Após o depoimento da testemunha, e com a chegada do investigador Ronald Silveira – enviado especial, recomendado pelo presidente -, a polícia passou a investigar o caso com maior afinco. O Serviço de Inteligência da capital também se fez presente na cidade.

Após alguns dias, o investigador Ronald, experiente e famoso por desvendar casos famosos em território nacional, reuniu uma interessante hipótese que ligava as vítimas. Vamos à sua teoria.

Primeiramente, o investigador correlacionou geograficamente a morada de cada uma das vítimas, pois tinha uma suspeita de que o crime tinha alguma ligação religiosa, posto que a vestimenta do assassino, segundo a descrição da testemunha, lembrava a vestimenta de alguma entidade religiosa; e que não fazia sentido, naquele calor escaldante de verão, alguém vestir-se daquela forma, mesmo que para não ser identificado.

Dona Isaura, a primeira vítima, morava a Leste da cidade; dona Cremilda, a Oeste; dona Anunciação, ao Norte. Consultando o mapa, Ronald percebeu que as localizações eram perfeitamente simétricas, e que, se uma quarta vítima fosse confirmada bem ao sul da cidade, formaria, assim, uma cruz perfeita. E sabemos que uma cruz representa bem um símbolo do cristianismo. O que, aparentemente, reforçava as suspeitas de um crime movido por algum psicopata religioso.

Outro fato lhe chamou a atenção: nenhuma das vítimas era casada ou viúva, mas todas já tiveram companheiros, mas casamento religioso ou civil, não. No cristianismo, isso não é bem-visto, sabemos. O investigador, então, acendeu a luz de alerta para este importante detalhe. No caso, para o investigador, as vítimas estavam sendo punidas pelo mau-passo – na ótica do assassino – do passado, que seja, o de terem tido relacionamentos sem a ‘‘bênção de Deus e dos homens’.

Simetricamente, a casa que complementava e finalizava a cruz dos assassinatos, segundo os cálculos da corporação, era a casa da senhora Maria das Dores, uma mulher que atendia perfeitamente aos requisitos do assassino: solteira de nascimento, mas com um histórico de relacionamentos anteriores. Ignorando o fato de um assassinato por mês, a polícia achou por bem, desde já, fazer uma campana sigilosa nas proximidades da referida residência.

Não podiam cogitar perder, um dia sequer, a possibilidade de prender o assassino, posto que, com a notoriedade do caso, o psicopata poderia considerar adiantar o crime antes da chegada do mês de novembro.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

MAIS Notícias
A taberna das horas mortas –  final
A taberna das horas mortas – final

A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de...

A taberna das horas mortas – parte I
A taberna das horas mortas – parte I

A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que...

Um ser com sede?
Um ser com sede?

  A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *