O menino – parte IV (final)

01/11/2025

Dias depois, quando o menino já caminhava com menos dor, um envelope chegou pelos correios. Era de um endereço distante. Dentro, haviam páginas impressas: um conto curto, escrito com caligrafia firme. Em cima, um nome: Haroldo. Era do pai. O homem escrevera sobre a própria infância de pancadas e silêncio e como, ao reler, sentia pela primeira vez um remorso que podia ser transformado. O pai tinha proposto, na carta, criar um grupo na escola, conversar com outros pais, com os meninos. Era um pedido de ajuda e de redenção.

O menino leu aquelas páginas e, por baixo das letras, sentiu o sopro da senhora de branco. Percebeu que não fora só ele que passara por uma porta: alguém, também, havia aberto a sua.

Os dias foram tecendo mudanças pequenas e depois maiores. As mãos que antes batiam aprenderam a escutar. Não porque alguma mágica dera às crianças uma lição pronta, mas porque algo, ali, se tornara público, humano, impossível de ignorar. A mãe do menino começou a trabalhar com outras mães. A diretora criou a roda de leitura. O livro que o menino lera tornou-se peça central das conversas: nele, o gnomo era uma metáfora e uma ferramenta.

Anos depois, já adolescente, o menino escreveu. Não sobre vingança, nem sobre vitimização; escreveu sobre o nevoeiro, a senhora de branco, o pequeno gnomo que, naquele dia, lhe dissera que existem escolhas. O texto foi publicado numa coletânea da escola. Um leitor, tocado, reenviou-o para uma editora pequena. Era o começo, nada de esplendor súbito — apenas a persistência de uma história que continuava a fazer companhia a quem a lia.

A surpresa final veio numa manhã de outono. O menino, já homem, recebeu uma carta simples. No envelope, um selo amarelo, e dentro apenas uma fotografia: uma lápide nova, com três nomes. Um deles era o seu. O segundo era o de sua mãe. O terceiro era o de Ângela, a diretora. Abaixo, uma inscrição: “Aqui repousam as coisas quebradas; aqui também repousam as que foram consertadas.”

No verso da foto, uma mensagem única, escrita com a caligrafia do menino, agora firme:

“Não sei se realmente voltei daquela vez que achei o nevoeiro, ou se nunca mais parti. Sei apenas que, quando aprendi a contar de mim, as outras vozes deixaram de soar tão sóbrias. Descobri que morrer não é sempre o fim; às vezes é um começo. E voltar não é sempre recomeçar do zero; é carregar consigo o fogo que aquece os outros. Se alguma surpresa há, é esta: o menino que chorou em silêncio tornou-se o menino que escreve, e o que escrevemos pode ser o corpo que cura.”

A última linha era a mais inesperada de todas: vinha assinada pelo gnomo — uma letra pequena, quase infantil.

O homem sorriu. Pelo corredor da janela entrou um vento conhecido, que cheirava a flor. E, no silêncio que veio depois, ouviu, de novo, passos leves, como de alguém que caminha entre lápides e livros, guardando o lugar onde se escolhe o que vale a pena.

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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