O Ovo da Serpente ou os matadores de si mesmos

12/09/2026

 

“Temos de vê-lo um ovo de serpente/Que chocado segundo o seu destino/Virá a ser maligno e deve então/Ser morto ainda na casaca.”

 

A fala acima faz parte da peça “Júlio César”. Escrita por Shakespeare em 1599, entre “Henrique V” e “Hamlet”, dois outros clássicos de sua obra magistral, assinala do ponto de vista dramatúrgico a transição da produção histórica para a tragédia. A fala é proferida pela personagem Brutus e aparece no início do II Ato, Cena I, quando conspiradores tomam a decisão de assassinar Júlio César, em 44 a.C., a fim de que não se inicie um período de grandes males para o povo romano.

A metáfora sugere que se deve eliminar o mal em gestação, ainda na casca. Foi com esse significado que se tomou a expressão “ovo da serpente” para definir a existência de prenúncio das grandes tragédias, quando a sociedade se mantém indiferente aos sinais da intolerância, do ódio e diferentes ameaças concretas de eclosão de regimes autoritários e totalitários.

Com esse título, “O Ovo da Serpente”, o cineasta Ingmar Bergman realizou um de seus filmes mais conhecidos, examinado por mim em livro sobre a filmografia do realizador sueco. Trata-se de uma película de 1977, e gira em torno do clima social e político da Alemanha nos anos que antecedem o surgimento do nazifascismo (1935-1945), de que resultaram os mais monstruosos acontecimentos registrados pela história da humanidade.

Como afirma Bárbara Heliodora, especialista na obra do dramaturgo inglês, Brutus representa o republicano convicto, para quem nenhuma mudança, por mais assentada em crenças de qualquer espécie, valeria mais que a preservação dos direitos do cidadão e a própria natureza do governo republicano. De outro lado, o aristocrata e militar Marco Antonio, opondo-se a Brutus, professava que, na verdade, “a maioria [das pessoas] preferia cuidar de sua vida que pensar no Estado”. Qualquer semelhança não será mera coincidência.

Como se vê, vencendo barreiras geográficas e cronológicas, a peça de Shakespeare impõe-se com uma atualidade que impressiona. No primeiro quarto do terceiro milênio, países de todos os continentes se veem sob ameaças que não podem continuar a ser ignoradas, sob pena de o mundo, bem na linha do que já está provado em diferentes latitudes, reviver tragédias que se pensava irrepetíveis.

No Brasil, como a anunciar-se dramaticamente inevitável, pelo que mostra o correr das águas turvas, sob a força de fundamentalismos religiosos, da ignorância de uma classe média equivocada, que se julga elite (latirá no jardim sem poder participar da festa) e de uma classe “A” perversamente egoísta e inescrupulosa, não é muito dizer que se veem, ao sabor de mecanismos subliminares de parte de uma imprensa tocada a interesses inconfessáveis, do nacionalismo entreguista da ultradireita e da cumplicidade de integrantes do Judiciário, já se veem, repito, fissuras na casca do ovo de que nos falou Brutus na desconcertante metáfora.

A pouco mais de duas semanas das eleições, ainda que tardiamente, ancorando-se nos valores do melhor arbítrio e das convicções redentoras, o povo brasileiro tem a chance de resistir ao monstro neofascista que se avizinha. Aparentemente inofensivo e ignorável, ele se mexe dentro do ovo da serpente para gerar consequências desastrosas.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Lembrar para jamais esquecer
Lembrar para jamais esquecer

    Vez e outra, vejo na rede social posts do secretário de Cultura de Iguatu, Honório Barbosa, com informações importantes sobre ruas, logradouros, prédios públicos e coisas e tais, iniciativas que visam a resgatar a memória perdida de nossa cidade. Faz...

Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *