O pensamento conservador

21/11/2020

O pensamento conservador, ao contrário do que muitos erroneamente pensam, não é nada reacionário. O pensamento reacionário está preso inexoravelmente a um passado saudosista. Ocorre que tampouco o pensamento conservador tenha qualquer coisa de revolucionário. O pensamento revolucionário está, por sua vez, preso a um futuro idealizado, utópico muitas das vezes (para não dizer na maioria esmagadora das vezes).

Um dos exemplos mais conhecidos para fazer distinção dentre esses três tipos seria a alegoria da casa. Vamos a ela. Uma casa, seja ela qual for, aos olhos do reacionário, preso ao passado, a manteria tal qual ela se encontraria: com suas rachaduras, pintura descolorada, alicerce comprometido etc. Estimando o passado em demasia, o reacionário deixaria a casa com a sua própria ruína abalada; não apeteceria, ao revolucionário, qualquer mudança.

Já no caso do revolucionário, a casa decrépita já não lhe teria qualquer serventia. Caberia, por tanto, condená-la e destruí-la, visando com isso a construção de uma nova casa (a utópica casa do futuro; perfeita e sem qualquer resquício de vínculo com a casa predecessora que fora posta abaixo em nome da nova).

Chegamos por fim à casa do conservador. O conservador não deseja manter o que nela há de errado. O conservador não pensa em conservar o que não presta ou funciona mais, como no caso do reacionário. Mas também sabe do seu valor, e, nisso, não lhe apetece pôr abaixo toda a residência em prol de uma ideológica visão de “casa perfeita do futuro”, como seria no caso da visão revolucionária.

Uma demão de tinta aqui, uma troca de telhas acolá, cimentos e madeiras talvez, e pronto! Eis a casa reconstituída sem sua velha forma imprestável do reacionário e sem a sua derrocada ambicionada pelo revolucionário.

Assim, creio que o prezado leitor deva ter entendido a diferença básica desses três pensamentos. Penso que o conservador seja alguém que sabe valorizar o passado e tem um certo olhar de desconfiança para propostas vindouras. Seu ceticismo e maturidade não o permitem abandonar o que funcionou no passado e se jogar de cabeça em qualquer proposta fantasiosa típica dos impulsos juvenis.

Finalizo a coluna indicando ao caro leitor a leitura de um livro do escritor português João Pereira Coutinho: “As ideias conservadoras: explicadas a revolucionários e reacionários”. Indispensável leitura para quem tenha curiosidade em compreender um pouco mais sobre essa salutar visão de mundo!

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

MAIS Notícias
A taberna das horas mortas –  final
A taberna das horas mortas – final

A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de...

A taberna das horas mortas – parte I
A taberna das horas mortas – parte I

A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que...

Um ser com sede?
Um ser com sede?

  A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *