O penúltimo prisioneiro do caso ‘‘As Bestas do Cemitério Oval’’ fora enforcado naquela tarde no vilarejo esquecido por Deus de Pedra dos Últimos. O lugar era povoado por pouco mais de seis ml habitantes. Um típico lugarejo de economia familiar agrícola de subsistência, de ar puramente feudal.
Era o final do século XVIII. 1797 para ser mais preciso. O cadafalso e o algoz esperavam pelo próximo e último condenado à forca. Estevão era o seu nome. Era a última das três bestas. Embora ainda não houvesse data marcada para o cumprimento da pena, rumores indicavam que não tardaria a acontecer.
Após a profanação de vários túmulos do cemitério, incluindo o da sobrinha do padre da vila, o monsenhor Antero, as investigações levaram aos três condenados: Laerte, o cartomante, o primeiro a ser punido, João, o beberrão, o segundo a beijar a morte, e Estevão, o ferreiro, que aguarda a sua vez.
Dos três, apenas Estevão alegou inocência. Dizia ser vítima das circunstâncias, já que fora encontrado, coincidentemente, com os outros dois homens no cemitério durante uma emboscada. Dizia estar lá apenas para consertar o ferrolho do túmulo de um falecido tio. Que sequer conhecia bem os senhores profanadores.
O carcereiro, homem de poucas palavras, chamava-se Josué. Era conhecido por sua fidelidade cega ao monsenhor Antero — que, não raro, o utilizava como seus olhos e ouvidos nas tabernas da vila. Naquela noite, Josué levava a comida de Estevão em silêncio, como fazia todos os dias desde que os outros dois foram executados. Mas algo estava diferente: os olhos do ferreiro, sempre altivos, estavam estranhamente calmos.
— Diga-me uma coisa, Josué… — começou Estevão, enquanto partia o pão velho com as mãos fortes e calejadas. — Tu acreditas em justiça?
Josué não respondeu. Cuspiu no chão e se afastou para o canto escuro da cela, onde costumava esperar que o prisioneiro terminasse de comer. Mas aquela noite lhe traria respostas — ainda que não as desejasse.
Do lado de fora, uma névoa grossa começava a engolir as pedras do vilarejo. Os sinos da igreja estavam silenciosos, o que era estranho, já que monsenhor Antero sempre os fazia tocar ao pôr-do-sol. Algo pairava no ar, algo que nem mesmo os cães ousavam latir contra.
Horas mais tarde, uma comoção acordou os moradores da Pedra dos Últimos. O monsenhor Antero fora encontrado morto em sua própria sacristia. O túmulo de sua sobrinha, antes profanado, agora jazia refeito… e, sobre ele, estava o cadáver do padre, com os olhos arrancados e um símbolo estranho cravado em seu peito: uma forja em chamas com três serpentes entrelaçadas.
Dias se passaram. O vilarejo mergulhou em silêncio. O juiz enviado da capital não encontrava palavras para relatar o que viu ao abrir a cela de Estevão: vazia. Nenhum sinal de arrombamento, nenhum túnel, nenhuma corda. Apenas as correntes intactas e um estranho símbolo queimado na pedra da parede — o mesmo da sacristia.
Apenas Josué estava lá. Sentado, murmurava palavras desconexas com os olhos fixos na parede. Quando finalmente conseguiram arrancar-lhe algum sentido, disse apenas:
— Ele não era a besta… Ele era o ferreiro.
E então, olhando diretamente para o juiz, sussurrou:
— Foi ele quem forjou as correntes… que prenderam as verdadeiras bestas.
Diz-se que Estevão nunca deixou Pedra dos Últimos. Às vezes, ouve-se o som de marteladas vindo do antigo cemitério, mesmo em noites sem lua. Os túmulos voltaram a ser selados com ferro novo — negro, como carvão. Os mortos, agora, descansam. E as bestas… bem, as bestas nunca estiveram entre os homens. Foram apenas libertadas por eles.
Estevão não era culpado. Era o guardião.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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