O sentimento que não é “mi mi mi”

06/03/2021

Em rigor não existe em outro idioma equivalente que diga com exatidão, vigor e poesia, o que nos diz, em português, a palavra saudade.

Ela traduz o mais comovente dos sentimentos humanos, o mais dilacerante, o mais doloroso, a lástima da ausência, a tristeza da partida, o inevitável das perdas e das separações. Insisto: só em língua portuguesa, que me perdoem os que forem buscar nos subterrâneos da etimologia e das possibilidades de tradução o sinônimo perfeito para o vocábulo com que definimos o que se sente na ausência da coisa amada, o que dói no fundo da alma quando desejamos conosco aquilo que se foi, ou ficou, enquanto partimos.

Está na pedra dos túmulos, no coração dos viajantes, dos exilados, dos solitários e dos esquecidos. No poema dos apaixonados.

Em Canção de Amor, um clássico do cancioneiro popular, Elano de Paula diz: “Saudade, torrente de paixão/emoção diferente, que aniquila a vida da gente,/uma dor que não sei de onde vem…”

Chico Buarque, em Pedaço de Mim, encontrou com sua genialidade poética a expressão que diz do sentimento: “A saudade é o revés de um parto/A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.

Fausto Nilo, em Asa Partida, traz os versos antológicos: “E continua o teu sorriso no meu peito,/esta saudade, o cigarro, a luz acesa/e esta noite posta sobre a mesa”.

A poesia diz figuradamente, transmitindo ao outro, o que parece incomunicável. O prodigioso poder da literatura! O milagre que só a arte é capaz de operar!

Que dizer de Brant: “Amigo é coisa pra se guardar/do lado esquerdo do peito/dentro do coração/mesmo que o tempo e a distância/digam, não”.

Ou Duran, que, à falta de um lápis, escreveu a batom, no espelho: “Ah, a rua escura, o vento frio/esta saudade, este vazio/esta vontade de chorar”.

Dia desses, conversando com amigos, ainda quando era dado sentar à mesa para conversar, o tema veio à tona: “É o doloroso gozo!”, alguém falou, arrancando da memória a contradição.

É que não existe saudade que possa, por inteiro, aliviar a dor, mesmo quando a sentimos daqueles que amamos – e vão chegar! Da viagem de que nunca vamos esquecer, do beijo doce, dos dias felizes, da boa infância, do primeiro amor.

Há, no entanto, a saudade que é ferro em brasa atravessando o coração, que é ácido na ferida aberta, que traz consigo a sentença inassimilável: “Nunca mais!”

O sentimento que não é mi mi mi, como professam os monstros!

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Os Sonhadores*
Os Sonhadores*

    “Vem, vamos embora/Que esperar não é saber/Quem sabe faz a hora/Não espera acontecer”. Os versos, extraídos da letra da canção ‘Pra não dizer que não falei de flores’, composta por Geraldo Vandré, em 1968, constituem o estribilho que chamou à luta os...

O vinho, o voto e a verdade
O vinho, o voto e a verdade

    “Poetas, seresteiros, namorados, correi!/ É chegada a hora de escrever e cantar,/ talvez as derradeiras noites de luar”!   Os versos acima são de Gilberto Gil, e foram extraídos da letra de Lunik 69, que faz referência à ambição do homem norte-americano...

Tristes Partidas
Tristes Partidas

    Num momento tão delicado da vida nacional, estando o país sob ameaças concretas de trágico retrocesso político e desconstrução do Estado Democrático de Direito, é lamentável que dois grandes nomes da cultura brasileira tenham nos deixado: Aracy do Amaral...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *