O vulto cinza

12/09/2026

 

 

Acordei às três e alguma coisa da manhã com a boca seca. Não era sede de água. Água não resolve certas sedes. Levantei da cama, acendi a luz do corredor e fui até a cozinha buscar a última cerveja. Ando bebendo mais do que devia, fumando mais do que devia e pensando mais do que qualquer homem deveria pensar. Talvez seja por isso que ainda esteja vivo. Ou talvez seja justamente por isso que um dia desses deixe de estar.

Abri a geladeira. Havia duas garrafas, para a minha surpresa. Peguei uma. Foi quando vi o vulto. Passou depressa pela sala. Cinza. Não era uma pessoa propriamente. Pelo menos não dessas que a gente encontra durante o dia, pagando conta, reclamando do calor ou perguntando que horas passa o ônibus. Era uma coisa comprida, silenciosa, que atravessou a sala como se conhecesse a casa.

Fiquei parado. A cerveja ainda estava na minha mão. Não sei quanto tempo fiquei ali. Talvez dois segundos. Talvez um minuto. De madrugada, o tempo fica meio bêbado também. Pensei em André. Não sei por quê. Talvez porque André estivesse morto. Morreu aos cinquenta e um anos, de câncer. Uma dessas doenças que começam como uma coisa qualquer e terminam tomando conta de tudo. Primeiro o corpo, depois a conversa, depois a esperança dos outros.

André nunca teve muita esperança. Talvez por isso tenha sido meu amigo. Nós não éramos homens de acreditar muito nas coisas. Éramos mais chegados à dúvida. A dúvida não promete nada. E homem que não espera nada sofre menos quando a vida resolve cobrar. Fiquei olhando para a sala.

— André? Falei baixo. Não houve resposta. Claro que não houve. Mortos não costumam responder. Pelo menos não para mim. Tomei um gole da cerveja. Fui até a sala. Nada. O sofá. A mesa. O cinzeiro cheio. Duas cadeiras. A televisão desligada. Tudo no lugar. Tudo como sempre. E, no entanto, alguma coisa tinha passado por ali. Ou eu pensei que tinha. Essa é a parte que mais me incomoda. Se tivesse sido uma assombração, seria mais fácil. A gente chama de fantasma e pronto. Arruma uma explicação sobrenatural para uma coisa que não entende e pode voltar a dormir tranquilo.

Mas e se não fosse? E se tivesse sido apenas uma sombra? E se tivesse sido o meu cérebro pregando uma peça às três da manhã? E se tivesse sido André? É engraçado como a morte continua trabalhando depois que o sujeito morre. André morreu há algum tempo, mas naquela madrugada ele voltou a me visitar sem precisar voltar. Bastou um vulto. Cinza. Passeando pela minha sala. Terminei a cerveja em pé. Acendi um cigarro. A fumaça subiu devagar, desaparecendo no escuro. Pensei que talvez fosse isso que sobrasse de nós no fim: um vulto.

Uma lembrança mal iluminada. Um nome que alguém ainda pronuncia de vez em quando. Depois nem isso. Olhei para o relógio. Três e cinquenta e sete. Voltei para a cama. Não consegui dormir. E, antes de fechar os olhos, pensei que talvez André tivesse vindo apenas para me lembrar de uma coisa que eu já sabia: que cinquenta e um anos não é idade para morrer. Mas é uma idade perfeitamente razoável para começar a entender que a morte não está com pressa. Ela só está esperando.

 

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

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