Os livros e as Mulheres

27/06/2026

A minha relação com os livros tem sempre um componente passional, assumo! Via de regra, começa com um flerte, ainda que a distância, quase sempre na vitrine da loja.

Como nas mulheres, neles me chama a atenção a forma como se vestem. Adoro as discretas, que sabem com aparente desleixo compor o traje, combinando bem a textura dos tecidos com a expressividade das cores. As que exibem sua beleza com discrição e charme. As que sugerem displicência e, sob a capa, revelam-se antenadíssimas, e tudo sabem. Enciclopédicas.

No caso deles, os livros, há os que, já de longe, impressionam pela encadernação, o look da capa, o colorido da gravura (quando têm gravura!), a elegância com que se apresentam, sem afetação.

Assim, é comum que me apaixone por um desses como por uma mulher, meio sorrateiro, como quem finge não querer e quer. Mas, de perto, e mal disfarçando, é preciso checar antes o volume do corpo, a maciez da pele, e, importante!, quais as intenções com que veio parar à sua frente, de repente, não mais que de repente, a nos lembrar Vinicius, poeta da paixão.

É curioso como logo se estabelece a comunicação. E vamos em frente. Entre intimidados e desejosos, aproximamo-nos, um tanto sorrateiros e desconfiados, receosos.

Aí, todos sabem, vem a primeira troca de informações, a primeira sugestão de intimidade; a mão no dorso, ligeiramente arredondado, nunca esquelético, mas gostoso de pegar.

Em pouco tempo, se a atração se confirma, a entrega é mútua. Os primeiros afagos, os toques sutis, e o cheiro bom, que provoca aquela sensação gostosa — um ligeiro arrepiar de pelos. E a gente vai sentindo uma vontade de levar para casa, de se entregar horas a fio no bem-bom, agarradinhos e afáveis. Detalhe: quase sempre na cama, entre lençóis e travesseiros. Mas pode ser na rede, quem sabe num sofá…

Mas atenção: há que se tomar cuidado, posto que existem os enganosos, os que vendem gato por lebre e são mal intencionados.

Há os surpreendentes, os que decepcionam, os reticentes, os vulgares, os indecentes.

Os passageiros, há.

Um grande livro, como uma grande mulher, tem poderes para transformar sua vida, de operar milagres…

Como as mulheres, há os rebuscados, os artificiosos, os superficiais.

Há os tímidos, que vão se revelando aos poucos. A esses, deve-se abandonar por uns tempos, dando-lhes, quando muito, uma chance aqui, outra acolá, alimentando possibilidades.

Não raro, valem a pena, e, dia desses, sem que você espere, são capazes de lhe deixar nas nuvens. Delícia, delícias…

Há, no entanto, aqueles que você mal larga, vem um outro…

Vulgarizam-se, e, para seu desencanto, andam logo de mão em mão. Banalizam as relações.

Como entre elas, há os invejosos, os sem originalidade, que querem ser o que não são.

Não se surpreenda. Há os demasiado formais, os levianos, os que preferem a meia-luz, outros, a plena claridade. Há os lentos, cheios de rodeios, os apressados, que vão direto ao ponto.

A esses, sejamos redundantes, falta-lhes uma pitada de poesia, um toque menos prosaico no tocar a vida, de azeitar a relação.

Há os que adoram as preliminares, os que deixam você em êxtase, mas logo perdem a graça. Os esquecidos.

Um bom livro, é que nem a mulher amada: você não dá, não troca, não empresta.

A esses, como à mulher que tenho, sou fiel, mantenho-os sempre ao alcance da mão, e, dedos em cruz, posso afirmar: — “Nunca traio”, e (importante!) sou incapaz de incorrer num mínimo gesto de ingratidão.

Assim como as mulheres, há aqueles que você nunca esquece.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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