Ler Viagem ao Centro da Terra e 20 Mil Léguas Submarinas é como caminhar por corredores subterrâneos e corredores oceânicos ao mesmo tempo, guiado por alguém que conhece o mapa antes mesmo de desenhá-lo.
Em Viagem ao Centro da Terra, descemos junto com o professor Lidenbrock, sempre impaciente, e o jovem Axel, sempre hesitante. É uma jornada que começa no silêncio empoeirado de um gabinete, entre livros e pergaminhos, e termina em um mundo que desafia o próprio conceito de realidade: mares internos, fósseis vivos, labirintos de pedra e fogo. O subterrâneo, para Verne, não é um espaço morto — é um organismo pulsante, um útero geológico onde tudo parece possível. A cada passo, o leitor escuta o eco da pergunta: “E se…?”.
A aventura funciona como metáfora de tudo aquilo que tememos explorar: nossas profundezas, nossas dúvidas, nossos medos. Ao acompanharmos Axel, percebemos que o maior abismo não é o interior da Terra, mas o interior de cada um de nós.
Já em 20 Mil Léguas Submarinas, não descemos pela terra — afundamos pelo desconhecido azul. Se Lidenbrock é a paixão quase cega pela ciência, o capitão Nemo é a ciência ferida, transformada em refúgio e protesto. O Nautilus não é apenas uma máquina; é um grito silencioso contra o mundo da superfície, com suas guerras, injustiças e vaidades.
A bordo, o professor Aronnax vive uma contradição fascinante: ele admira o gênio de Nemo, mas teme o homem que ele se tornou. E nós, leitores, navegamos nessa mesma ambiguidade, fascinados com as maravilhas submersas — florestas de corais, ruínas perdidas, criaturas abissais — mas inquietos com a solidão daquele comandante que carrega o peso do próprio passado como âncora.
Se Viagem ao Centro da Terra é o espanto juvenil diante do desconhecido, 20 Mil Léguas Submarinas é o amadurecimento amargo de quem já viu demais. Um livro olha para o interior do planeta; o outro, para o interior da alma.
E é isso que faz Júlio Verne atravessar gerações: ele não escreve apenas sobre o que existe ou existirá, mas sobre aquilo que desejamos encontrar e aquilo que tememos descobrir. Em suas histórias, o impossível sempre parece ao alcance da mão — e, ao virar a última página, percebemos que a maior viagem é sempre a que fazemos dentro de nós.
Verne, com sua bússola imaginária, nos lembra que o mundo é imenso, mas nossa curiosidade é maior ainda. E que, enquanto houver leitores dispostos a descer túneis ou mergulhar abismos, suas portas continuarão abertas.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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