Depois de anos afastado das salas de aula por causa da dependência química, o professor Antônio José Cândido, conhecido em Iguatu como “professor Zezinho”, decidiu tornar pública sua trajetória de luta contra as drogas e seu desejo de reconstruir a própria vida por meio da educação.
Formado em Química pela Universidade Federal do Ceará – UFC, com especializações em Docência no Ensino Superior e Análise do Comportamento Aplicada ao Autismo, Zezinho já atuou como professor em escolas particulares de Iguatu e Crato, além de ter lecionado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE.
Em conversa com a reportagem, ele contou que enfrentou quase 10 anos de dependência química, período em que fez uso de cocaína e chegou a consumir crack. Segundo o professor, a dependência provocou profundas perdas pessoais, familiares e profissionais.
Durante esse período, Zezinho passou por internações em duas clínicas de recuperação em Fortaleza e enfrentou diversas recaídas ao longo do tratamento. Apesar das dificuldades, afirma que conseguiu alcançar uma importante conquista: permanecer quatro anos sem usar drogas. “Foi uma luta muito difícil, mas eu decidi recuperar minha vida”, relatou.
Segundo o professor, o vício foi um processo gradual e silencioso, que começou sem que ele tivesse dimensão das consequências que enfrentaria anos depois. Ele relata que experimentou cocaína inicialmente por curiosidade, acreditando que conseguiria manter o controle da situação. No entanto, com o passar do tempo, o uso deixou de ser ocasional e passou a ocupar espaço central em sua vida. A rotina profissional, os vínculos familiares e os projetos pessoais começaram a ser afetados pela compulsão e pela necessidade constante de consumir a substância. “A pessoa pensa que está escolhendo usar, mas chega um momento em que já não existe liberdade. Você passa a viver em função da droga”, contou.
Sofrimento, recaídas e reconstrução diária
Durante os anos de dependência, Zezinho afirma ter vivido períodos de profundo isolamento emocional e desgaste psicológico. O professor relata que perdeu gradativamente sua autoestima, afastou-se de pessoas próximas e enfrentou dificuldades financeiras severas. Em alguns momentos, segundo ele, a sensação era de ter perdido completamente a própria identidade. Ainda assim, destaca que o processo de recuperação o fez compreender a dimensão humana do problema e enxergar a dependência química como uma condição marcada por sofrimento, recaídas e reconstrução diária. “Muita gente vê apenas o erro de quem usa droga, mas não vê a dor e a prisão mental que existem por trás da dependência”, afirmou.
Hoje aposentado, Zezinho explica que precisou se afastar das atividades profissionais em consequência do agravamento do seu quadro de saúde relacionado às drogas. Segundo ele, a trajetória nas drogas comprometeu não apenas sua vida pessoal e emocional, mas também sua estabilidade financeira e profissional. O professor afirma que acabou se aposentando com pouco tempo de contribuição, o que resultou em vencimentos inferiores à renda que possuía durante os anos em que estava em plena atividade docente. Além disso, relata que parte significativa da aposentadoria é atualmente comprometida por empréstimos consignados assumidos ao longo do período mais difícil da dependência. Ainda assim, diz que busca reconstruir a própria vida com dignidade, apostando novamente no conhecimento e na educação como caminhos para recomeçar.

Recomeço e estratégia
Ele conta que, nos últimos anos, tentou retomar as atividades dando aulas particulares, chegando inclusive a distribuir panfletos pela cidade em busca de alunos. No entanto, segundo ele, ninguém o procurou. Além disso, afirmou ter procurado escolas particulares em busca de oportunidades para retornar à sala de aula, mas ainda sem sucesso.
Diante desse cenário, Zezinho decidiu adotar uma nova estratégia: promover palestras voltadas aos pais de estudantes, abordando temas científicos e educacionais, ao mesmo tempo em que compartilha sua própria experiência de superação.
A primeira palestra terá como tema “Como os químicos antigos descobriram o átomo”. Segundo ele, o objetivo é demonstrar que continua preparado intelectualmente para ensinar. “Quero provar que ainda tenho conhecimento e capacidade para contribuir com os estudantes”, afirmou.
Além das palestras para pais, o professor diz que pretende futuramente levar tanto seu conhecimento científico quanto sua vivência pessoal para alunos de escolas públicas, utilizando sua história como alerta sobre os perigos da dependência química.
Ao procurar espontaneamente a reportagem, Zezinho explicou que decidiu expor publicamente sua trajetória porque acredita que esconder o passado não ajudaria em sua tentativa de reconstrução. “Eu sei que muitas pessoas ainda me veem pela fase mais difícil da minha vida. Mas hoje quero mostrar que estou tentando recomeçar”, declarou.

Serviço
Palestra: “Como os químicos antigos descobriram o átomo”
Quarta-feira, 3 de junho
Auditório da Faculdade Centro Sul – FACS
Rua Guilherme de Oliveira, nº 870
Horários: 9h a 11h, 16h a 18h
Investimento: R$ 50,00.


0 comentários