Quase perfeição

20/07/2019

O desejo de conhecer é o início do conhecimento assim como o desejo de sobreviver é o começo da imortalidade.

Há 500 anos morria na França um dos maiores gênios da humanidade. Autor de duas das mais importantes obras da história da arte, A Última Ceia e Mona Lisa, Leonardo da Vinci (1452-1519), ou simplesmente Da Vinci, como costuma aparecer nas páginas mais cintilantes dos livros de arte, foi, no entanto, muito mais que um artista extraordinário, a quem se devem algumas das maiores conquistas da técnica pictural, a exemplo do sfumato, com que seu traço vaporoso cobria de mistério obras impagáveis da pintura.

Foi, no entanto, muito mais que um artista genial. Suas contribuições notabilizam-no como cientista, matemático, inventor, engenheiro, anatomista, escultor e arquiteto do Alto Renascimento. Mas é do artista que gostaria de falar um pouco na coluna de hoje.

Se não é numericamente expressiva a sua produção como pintor, parece não restar dúvidas de que a sua pintura atingiu uma força estética sob muitos aspectos inigualável, bem na perspectiva do que se pode ver em obras como Virgem dos RochedosA Adoração dos MagosDama com ArminhoO Batismo de Cristo e A Virgem com o Menino e Sant’ Anna, entre outras, em que sobressaem os procedimentos inconfundíveis no tratamento da luz, do sombreamento e da perspectiva, mesmo quando o rigor da análise aponta para erros de perspectiva, como n’A Anunciação, 1478, uma de suas obras mais notáveis.

Sob este aspecto, por sinal, é que resulta curiosa a falha técnica na obra de um gênio, leve-se em consideração que ninguém mais que Da Vinci pesquisou com tanta dedicação os efeitos da perspectiva na obra bidimensional de modo a que parecesse tridimensional. Este efeito, aliás, é destacado por Leonardo da Vinci com certa frequência em seus cadernos, bem na linha do que se pode observar quando afirma: “[…] dispor um corpo numa superfície plana como se tivesse sido modelado e separado daquele plano é o primeiro propósito de um pintor”.

A genialidade de Da Vinci, porém, quer como artista quer como cientista, está em que ele rompeu a dura barreira que parecia separar arte e ciência. Seus trabalhos, a Mona Lisa, por exemplo, para se fazer referência a uma obra de qualidade incontrastável, dá bem a medida do quanto o seu criador observou elementos matemáticos em sua composição. Foi além disso. Como afirma Walter Isaacson, em sua irretocável biografia do artista florentino, Da Vinci “arrancou a pele de cadáveres e delineou os músculos que movem os lábios para depois pintar o sorriso mais inesquecível do mundo”.

Mas como era Leonardo da Vinci, o que se pode dizer dele para além do que dizem os seus autorretratos por demais conhecidos? O que havia de tão inquietante no seu perfil psicológico, matéria amplamente explorada em mais de uma cinebiografia? Simples: Da Vinci foi um homem muito maior que sua obra, como só ocorre, disse sobre ele Thomas Mann, aos verdadeiros fenômenos, certas figuras extraordinárias, somando-se ao criador da Mona Lisa, Goethe e Tolstói, nessa ordem.

Além disso, para o bem e para o mal, citemos Giorgio Vasari: “Às vezes, de forma sobrenatural, uma única pessoa é milagrosamente brindada pelos céus com a beleza, graça e talento em tamanha abundância que o mais banal dos seus atos se converte em algo divino e tudo que ela faz claramente emana de Deus, não da arte dos homens”.

Atraente e gracioso, era dotado de certas características muito especiais entre os homens do seu tempo: forte, alto, elegante, bom conversador, decidido em suas escolhas, amável com os outros homens e com os animais. Em outras palavras: um ser humano muito próximo do que se pode considerar a perfeição – mesmo quando se sabe que, entre humanos, a perfeição não existe.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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