Um lampejo de correção

09/11/2019

Só mesmo num país intelectualmente atrasado (e moralmente corrompido) causa espécie a decisão dessa quinta-feira do STF contra a prisão em segunda instância. O inciso LVII do artigo quinto da Constituição não permite que se faça confusão quanto a isso, na mesma linha do que materializa o artigo 283 do Código de Processo Penal, objeto de julgamento sob o ponto de vista de sua constitucionalidade.

Não tenho formação na área jurídica, mas é bastante que se saiba ler e interpretar com segurança o que o texto diz em linguagem referencial, aquela que não deixa margem para interpretações desencontradas. Ir na contramão disso, reafirmo, é revelar incompetência intelectual ou desfaçatez moral. Além de um exercício de ódio doentio e explícito ao ex-presidente Lula, claro. Se o resultado do julgamento deixa-o “indignado”, pois, é só escolher em que categoria você se coloca. É uma questão de consciência, não mais que isso.

Em tempo, o que vai aqui afirmado se aplica com a mesma objetividade aos cinco ministros que votaram pela manutenção da prisão em segunda instância, numa indisfarçável demonstração de que se curvam a subjetivações inconfessáveis. Que o façam, pelos desvios morais de que estão acometidos, parece-me mesmo algo inevitável, posto que a densidade de suas formações acadêmicas não me permite concluir em contrário. 

O mal pior, todavia, é que brincam com as palavras a fim de defender o indefensável, corcoveiam num “juridiquês” irritante a fim de tentar encobrir suas motivações, bem na linha do que fez com notável destaque (e afetada teatralidade) o ministro Roberto Barroso, mal conseguindo esconder seus desvios éticos e comportamentais. Vejamos: – “A presunção de inocência é muito importante, mas o interesse da sociedade num sistema penal eficiente também é muito importante”. Nunca antes pude ver um ministro de nossa mais alta corte agir de forma tão cabotina, como a querer descarregar seus conflitos de personalidade de modo a ficar de bem com o público, esse segmento neofascista que se diz envergonhado com o resultado do julgamento.

Qualquer homem de bem, no gozo de suas faculdades mentais plenas e dotado de uma mínima capacidade de julgar com isenção, sabe que, a tomar por esteio o que diz a Constituição, não poderia ser outro o resultado: liberdade para aqueles que, ao arrepio da Lei, tiveram seus direitos civis suprimidos e ignorada a incontornável presunção de inocência até o trânsito em julgado, isto é, quando não couber mais recurso.

Mas é cedo para comemorar o que simplesmente parece justo, um reparo ao que se fez à Carta Magna do país com a intenção de influenciar os destinos políticos da Nação, leia-se prender o ex-presidente Lula e abrir caminho para a eleição de um fascista como Jair Bolsonaro. A entrevista do ministro Edson Fachin à Globo, mal encerrada a sessão dessa quinta-feira 7, dizem-no com todas as letras. 

​Essa gente não resiste a muita pressão.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *