Era um crepuscular quente quando adentrei aos grandes portões da necrópole. Para muitos, cemitério é sinônimo de sofrimento, ou até mesmo mau agouro. Para mim, ao contrário, ele é sinônimo de reflexão; um ambiente de paz de espírito, de devoção e saudosismo quanto aos que já se foram.
Fui caminhando pela estreita alameda do recinto a céu aberto. Cada túmulo denunciava um pouco sobre as pessoas que um dia caminharam sobre a Terra. Data de nascimento e falecimento. Uns tão jovens, outros nem tanto. As árvores, com suas folhas, flores coloridas e cheiros característicos, complementavam o clima agradável e relativamente fúnebre do local.
Gatos, animais místicos, passeavam por entre as sepulturas. Muitos se faziam deitados em louças frias resguardadas pelas sombras das inúmeras árvores. Jazigos eram, portanto, morada dos homens que partiram e dos felinos que ficaram. Assim, preces e miados, que se confundiam, subiam aos céus, esses distintos rogos.
Parei em frente ao lugar de repouso de um amigo, morto há seis anos por uma terrível doença. Era um sujeito rabugento e, ao mesmo tempo, alegre. Dividimos mesa e conversa repetidas vezes. Antes de vir morar aqui, ele isolou-se do meio, ficando recluso. Da última vez que o vi com vida, ele fez menção de ir ao bar rever a nossa seleta horda boêmia… mas a morte, esse anjo exterminador impiedoso, o levou antes.
Já no túmulo do segundo amigo – morto a três anos pela mesma implacável enfermidade -, outro felino repousava placidamente. Assim como fiz no primeiro jazigo, no segundo também me utilizei da reverência respeitosa e do sinal da cruz. Embora eu não seja uma pessoa propriamente ritualística, o momento pedia tal postura, penso. Com esse amigo, vivi muitas histórias. Nos bares da cidade, não foram poucas as vezes em que rimos e trocamos anedotas até altas horas. Um boêmio nato, como eu.
Neste instante, fui tomado por uma nostalgia arrebatadora. Os tempos idos, aqui, tornam-se quase palpáveis, como se uma espécie de consubstanciação entre o passado e o presente dessem cria a uma terceira existência. Ouço vozes do passado e sinto o cheiro do ambiente da época. Meus amigos, que tanto me fizeram rir, agora, sem matéria, povoam a minha mente por meio de lembranças e sentimentos ambíguos, mas reconfortantes.
Desconcentro-me da epifania ante o gato que, ao acordar, me fita um olhar inquisidor. Talvez por não estar habituado a ter humanos por perto, venerando o que ele, como uma espécie de guardião, tanto está acostumado a prezar. Sim, os animais velam os mortos, tenho isso por certo. O felino passeia por entre as minhas pernas, ronrona e volta a descansar no jazigo, brincando com uma folha seca próxima a ele.
Um vento quente sopra e varre o silencioso ambiente. Mulheres passam conversando ao longe, alheias ao evento e à experiência que tive. Passo a andar em meio aos muitos túmulos desconhecidos, curiando as fotos dos que ali jaziam. Mulheres, homens, crianças, idosos, todos igualmente sentenciados ao fenecimento da carne. Sepulturas nababescas e montinhos de arreia não dão maior ou menor glória.
Aqui, o poder aquisitivo ou a falta dele, de nada valem. Somos todos igualmente impotentes ante o perecimento. Os gatos residentes do cemitério sabiam disso. Revezavam pernoites entre túmulos dignos de um rei e covas destinadas a simplórios indigentes. A vida dos gatos continuava, e a morte eterna dos finados, também.
O pôr do sol prenunciava a noite naquela necrópole abençoada. Era hora de ir e beber. Aos meus mortos, aos gatos do cemitério. À morte. À vida!
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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