Há uma crueldade no fato de nascer que ninguém explica à criança. Ela chega berrando, como se já soubesse. E talvez saiba. Depois lhe dão um nome, uma certidão, algumas roupas, brinquedos coloridos e uma mentira cuidadosamente repetida: você vai ser feliz. É assim que começa a educação sentimental do ser humano. Antes mesmo de aprender a andar, o sujeito já está sendo treinado para acreditar que a vida possui algum propósito escondido atrás da próxima esquina.
Não possui. Ou, se possui, é um propósito que ninguém teve a gentileza de nos informar. Passamos anos frequentando escolas para aprender a responder perguntas que ninguém fará quando estivermos mortos. Decoramos datas, fórmulas, capitais, nomes de homens que já viraram pó. Aprendemos a escrever o próprio nome para depois gastarmos a vida inteira assinando papéis que autorizam nossa existência a ser cobrada em parcelas.
Trabalhe, pague, compre, case, reproduza, envelheça, morra… E, se possível, sorria para a fotografia. É um sistema bastante eficiente. O homem acorda cedo, olha para o relógio e sente uma pequena náusea. Não é doença. É apenas a consciência tentando respirar dentro de uma rotina apertada demais. Ele toma café, veste a camisa, pega o trânsito e vai vender oito ou dez horas do único patrimônio que possui e que jamais poderá recuperar: sua vida.
À noite, volta para casa cansado; liga uma tela; a tela lhe oferece felicidade; ele aceita. Amanhã fará tudo novamente. Talvez seja isso que chamamos de civilização: uma forma sofisticada de impedir que o indivíduo perceba que está preso. Schopenhauer teria pouca dificuldade para reconhecer a engrenagem. O desejo aparece, promete satisfação, é satisfeito por alguns minutos e imediatamente fabrica outro desejo. O homem corre atrás de coisas que, quando finalmente consegue, já não possuem o mesmo brilho.
O sujeito quer dinheiro: consegue dinheiro. Quer uma casa: compra a casa. Quer um carro: compra o carro. Quer alguém que o ame: encontra alguém. Depois quer paz: não encontra; então compra uma televisão maior. É uma espécie de tragédia com parcelas sem juros. Nietzsche talvez risse. Ou talvez tivesse pena. Porque o homem moderno descobriu milhares de maneiras de fugir de si mesmo, mas nenhuma maneira verdadeiramente eficaz.
Pode viajar para o outro lado do planeta; continuará levando a própria cabeça dentro da mala. Pode trocar de mulher, de marido, de cidade, de emprego, de religião, de partido, de roupa, de perfume e de amigos. No quarto de hotel, quando a porta fecha e o barulho do mundo diminui, lá estará ele. Ele mesmo. O maldito. Aquele sujeito de quem passou a vida tentando fugir. É por isso que tanta gente tem medo do silêncio. No silêncio não há propaganda, algoritmo, chefe, vizinho, aplausos… há apenas você e aquilo que você é quando ninguém está olhando.
E quase ninguém gosta desse encontro (você gosta, amigo leitor?). O homem diz que quer liberdade, mas frequentemente quer apenas escolher a própria prisão. ‘‘Humano, demasiado humano’’… Nietzsche o sabia!
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

0 comentários