Era 1789. A França fervia. A fome assolava o povo, a monarquia enfrentava uma crise profunda e uma revolução alterava os alicerces de um mundo que parecia imutável. Na Assembleia Nacional, os defensores da manutenção dos poderes do rei sentavam-se à direita do presidente da mesa. À esquerda, posicionavam-se aqueles que desejavam mudanças mais profundas na organização política e social. O espaço físico acabou emprestando seus nomes às correntes de pensamento que, ao longo dos séculos, se transformariam em diferentes tradições políticas.
Desde então, a história tratou de ampliar o significado dessas palavras. A direita passou a reunir, em diferentes momentos e países, correntes que valorizavam a preservação das instituições, da tradição, da propriedade privada e mudanças graduais. A esquerda, por sua vez, passou a representar diversas vertentes que defendiam transformações sociais mais amplas e reformas — ou mesmo rupturas — nas estruturas existentes. Em ambos os campos surgiram inúmeras escolas de pensamento, divergências internas e interpretações distintas. Não existe uma única esquerda, assim como nunca existiu uma única direita.
O tempo mostrou que essas ideias não permaneceram imóveis. Elas se adaptaram às circunstâncias de cada época, dialogaram com diferentes culturas e produziram governos bem-sucedidos e malsucedidos, avanços e retrocessos, acertos e erros. Em nome da esquerda e da direita, povos conquistaram direitos, promoveram reformas, construíram instituições, mas também testemunharam autoritarismos, perseguições e conflitos. A história não concede exclusividade à virtude nem ao equívoco.
Talvez por isso seja perigoso reduzir o debate político a slogans, rótulos ou frases repetidas sem reflexão. Quando se abandona a história, sobra espaço para caricaturas. A esquerda passa a ser definida apenas pelos seus críticos, e a direita também. O diálogo desaparece, substituído por versões simplificadas que pouco explicam a realidade.
Conhecer a origem desses conceitos não obriga ninguém a aderir a uma ideologia. Pelo contrário: oferece instrumentos para que cada pessoa construa suas próprias convicções. Um cidadão que compreende o contexto histórico da Revolução Francesa, a evolução do pensamento político, as transformações econômicas e sociais e as experiências dos diferentes governos tende a formar opiniões mais conscientes do que aquele que se limita às disputas do presente.
O ser político não nasce quando escolhe um partido. Nasce quando aprende a fazer perguntas, confrontar argumentos, verificar fatos e reconhecer que nenhuma ideia está acima da crítica. A maturidade política exige menos paixão cega e mais curiosidade intelectual. A democracia depende justamente disso: cidadãos capazes de discordar sem abandonar a razão, de defender princípios sem ignorar a história e de compreender que adversários políticos não são, necessariamente, inimigos da sociedade.
No fim das contas, talvez a maior lição deixada pelos assentos da Assembleia Francesa seja uma ironia histórica. Os lugares mudaram inúmeras vezes, os partidos surgiram e desapareceram, as ideias se transformaram, mas a necessidade de compreender o passado continua ocupando o centro da mesa. Afinal, quem desconhece a origem das palavras costuma se tornar prisioneiro dos seus próprios rótulos; quem conhece a história conquista a liberdade de pensar por si mesmo.
Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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