A Boa Sorte

02/07/2022

“Toda paixão tem alguma coisa de mórbido: é uma alienação, uma entrega obsessiva da própria vida ao ser amado”. Assim Rosa Montero diz ao narrar em livro belíssimo de sua lavra, ‘Paixões’, a história trágica de relacionamentos amorosos de gente famosa, Leon e Sônia Tolstói, Liz Taylor e Richard Burton, John Lennon e Yoko Ono, Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne, Artur Rimbaud e Paul Verlaine, entre outros.

O tema, explorado no estilo elegante de uma escritora que se notabiliza pelo notável domínio da narrativa, o que em muito justifica o fato de ser a madrilenha o nome de maior destaque da literatura espanhola contemporânea, é recorrente na prosa de ficção de Montero, ou mesmo nos livros em que se misturam os elementos da arte e do jornalismo ensaístico, a exemplo do incontornável ‘A Louca da Casa’, aquele com que foi apresentada ao leitor brasileiro.

Essa, por sinal, é uma marca pessoal da produção de Rosa Montero. Poucos autores, na literatura de hoje, terão manuseado suas estratégias narrativas como ela, o que torna seus livros um misto de realidade e fantasia, de construto artístico e depoimento memorialístico do que vivenciou de mais verdadeiro e mais secreto, e que divide com o leitor numa experiência estética ao mesmo tempo assombrosa e fascinante. É o que se dá, no melhor exemplo, quando temos em mãos o extraordinário ‘A Ridícula Ideia de Nunca Mais Te Ver’, escrito a partir do diário de Marie Curie, a cientista polonesa ganhadora de dois prêmios Nobel, sobre a perda do marido. Como Curie, Rosa Montero faz da perda do ser amado (o escritor Pablo Lizcano, como quem viveu durante 21 anos) a linha de força de uma narrativa vertiginosa sobre a morte, o sofrimento e a expectativa de que se tornem possíveis os laços que nos unem com o que se convencionou chamar de eternidade. O resultado, no entanto, longe de ocasionar um sentimento de pesado desconforto, é leve, delicado, sensível, um tipo de reflexão poética sobre as relações amorosas, o cotidiano da vida doméstica, o sentido da entrega ao objeto amado, mas, acima de tudo, é a tentativa bem-sucedida de fazer da literatura um instrumento de catarse ou sublimação, quando em meio à dilacerante realidade das perdas definitivas.

Agora, quentinho como um pão da última fornada, chega até nós o desconcertante ‘A Boa Sorte’ (Todavia, 2022), último romance de Rosa Montero, originalmente publicado na Espanha há dois anos. De novo, mas com uma visada que diferencia este livro dos demais, Montero explora o tema da paixão, da inexplicável e obsessiva experiência de “sair de si mesmo e se perder no outro, […] naquilo que imagina do outro”, como diz a própria autora.

O enredo é simples, embora a tessitura dramática se dê em bases estéticas ousadas, em que se confundem os pontos de vista e as situações nas quais se enredam os conflitos humanos explorados à perfeição por Rosa Montero, desde a chegada de Pablo, o protagonista, a Pozonegro, a decadente cidade que servirá de cenário para o recomeço entre misterioso e improvável de um homem dilacerado pelo sentimento de culpa após a perda de um filho.

Num tempo de tantos desencontros, ‘A Boa Sorte’ é leitura mais que recomendável, um tipo de confirmação de que a arte, a beleza, como está em Dostoiévski, haverá de salvar o mundo. Não bastasse, diga-se, a fazer justiça, o que o romance traz de exemplarmente moderno como estrutura narrativa, como potência de linguagem na função estética, como reflexão sobre o destino do homem num mundo de caos e incertezas.

Um romance imprescindível.

 

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

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