A devoção no distrito do Baú começou depois que foi erguida a capela pelo morador coronel José Alves de Oliveira, em 1896, para pagar uma graça alcançada. Como é relatado por familiares, que a esposa dele, dona Clara Alves, teve complicações durante o parto de um dos filhos e se os dois sobrevivessem seria construída uma igrejinha dedicada ao São José, como forma de agradecimento. Desde então, a tradição é mantida há mais de um século e a cada dia 19 de março, moradores, devotos, fiéis e visitantes participam da missa no dia dedicado ao Santo padroeiro do Ceará.
Os relatos de milagres, por intercessão ao santo são muitos. Um desses casos conhecidos muito bem pelos moradores é o de dona Toinha Alves, que há 21 anos, quando estava ‘desenganada pela ciência’, sobreviveu a um problema grave de saúde no cérebro e vive com mais intensidade e fé os festejos do santo de devoção. “O testemunho de Toinha, eu sempre gosto de contar. Toinha, moradora aqui do Baú, estava muito doente, tinha um problema na cabeça, cisticercose, infecção grave causada pela ingestão de ovos da Taenia solium, resultando em larvas (cisticercos) que se instalam nos tecidos, como cérebro (neurocisticercose), músculos e olhos. Ela na época foi desenganada pelos médicos e veio para casa esperar os dias finais, mas no dia de São José, um dos irmãos dela no desespero tirou todos os equipamentos que ela tinha, soro, sonda, para ela morrer mais tranquila, como disse. Nesse dia, dom José Doth estava celebrando aqui a missa. Minha mãe, Dona Zenalda (in memoriam) chamou o bispo para ir até a casa dela para ela receber a extrema unção, para ter uma morte tranquila, mas o que aconteceu foi diferente. Ela começou a melhorar a partir daquele momento e está aqui há 21 anos, como testemunha dessa história. Eu considero isso um verdadeiro milagre, sem medicamentos, apenas com a extrema unção desde 2005, nesse horário ao meio-dia, ela recebeu essa bênção de Deus, por intermédio do nosso bispo dom José Doth”, contou o médico veterinário Mauro Nogueira, bisneto do coronel José Alves de Oliveira, um dos guardiões da memória e dessa tradição secular da festa religiosa que acontece há 130 anos no Baú.
Testemunho confirmado pela própria Toinha e pela filha Patrícia Alves. “Pra gente é uma alegria imensa ter minha mãe depois desses 21 anos após ela ter recebido essa extrema unção. Não é fácil. Ela sempre foi devota de São José, fazia sempre as novenas em casa e nesse dia ficou marcado na nossa história. Para ela, é uma honra participar dessa festa aqui no Baú. São 31 dias de celebração. Ela participa principalmente desta missa”, contou a filha. Apesar de sequelas deixadas pela doença, Toinha mostrou sua felicidade e gratidão a Deus e ao seu santo de devoção, dizendo que se sentia bem, feliz por poder estar no meio da família e dos moradores celebrando esse momento e sua ‘nova vida’. “Viva São José! Obrigada Deus por mais um dia e por estar viva”, disse enxugando as lágrimas que escorriam dos olhos.

Tradição
Antigamente a missa acontecia sob o frondoso Ficus benjamim. Há cerca de cinco anos foi construído um salão ao lado da capela, que leva o nome de dona Zenalda Nogueira (in memoriam). Os filhos Mauro, Naura e outros parentes e moradores mantêm essa tradição de forte religiosidade.
Não diferente, a missa celebrada às 10h foi bastante participativa. Padre Henrique Teixeira, pároco da Matriz de Santana, presidiu a solenidade dedicada a São José. Ele destacou o exemplo do santo, ressaltando também a forte ligação do agricultor com a devoção ao padroeiro do Ceará.
No Baú, os homens puxam os cânticos, orações e ofícios, que são acompanhados pelas mulheres. A celebração no distrito segue até o final do mês, dia 31, sempre às 19h na capela.
A enfermeira aposentada Naura Nogueira, bisneta do fundador da capela, destaca que o festejo é bem mais participativo diariamente.

Pluviometria
No Baú, também tem outra tradição, iniciada por dona Zenalda Nogueira, histórico das anotações pluviométricas que são encaminhados para a Fundação Cearense de Meteorologia – Funceme, sempre quando chove, principalmente no período da quadra chuvosa. Naura, depois do falecimento da mãe, ficou com a missão de anotar no caderno as informações das precipitações e encaminhar para a Funceme. No dia do santo, 19 de março, quinta-feira, o registro foi de 32mm. O distrito tem duas grandes lagoas, a do Saco e a que leva o nome da localidade.

Diocese
Em Iguatu, foram comemorados os 26 anos de devoção a São José, padroeiro também da Diocese. Foram dez dias intensos de festividade, marcados pela religiosidade, envolvendo solidariedade, ações culturais e até esportivas, desde o ano passado quando foi colocada no calendário a Corrida de São José, que este ano chegou a II edição. A abertura do festejo foi com o “Treino do Padre”, na segunda-feira, 9. Na quinta-feira, 19, a Corrida de São José, além de novenas, caminhadas, missas e a tradicional procissão que reúne dezenas de moradores e devotos. Após a procissão, dom Geraldo Freire, bispo diocesano, presidiu a missa solene de encerramento. Padre José Wallace, pároco e cura da Catedral, destacou toda a programação avaliando como positiva e agradecendo, aos parceiros e principalmente aos devotos, fiéis e visitantes que participaram de todos os momentos.



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