Entre o corvo e gato – final

30/05/2026

Em meio a uma noite chuvosa no decadente Bar Saturno, os velhos amigos Augusto e Baltazar discutem apaixonadamente as obras de Edgar Allan Poe. Enquanto Augusto defende “O Gato Preto” como a representação mais cruel e humana do horror psicológico, Baltazar sustenta que “O Corvo” é superior por retratar a dor inevitável e a impossibilidade de escapar da tristeza. Entre copos de cachaça, fumaça e silêncio inquietante, a conversa revela não apenas a admiração pelos contos de Poe, mas também os próprios fantasmas interiores dos dois homens.

 

Continuação:

Seus olhos pareciam mais escuros agora.

— O homem do poema já está condenado antes da ave entrar. Ele lê livros antigos para esquecer Lenora. Tenta anestesiar o sofrimento com racionalidade. Então surge o corvo.

Fez uma pausa.

— E ele fala apenas uma palavra.

— “Nunca mais” — murmurou Augusto.

— Exato. E isso basta.

Baltazar inclinou-se lentamente.

— Percebe a crueldade? O pássaro não argumenta. Não consola. Não ameaça. Apenas repete. E justamente por isso o narrador projeta na ave toda a sua loucura.

O trovão ribombou tão forte que os copos vibraram. Baltazar continuou:

— A estrutura do poema é uma espiral psicológica. Cada repetição destrói um pouco mais a sanidade do homem. No início ele brinca com o corvo. Depois começa a fazer perguntas sinceras. Depois desesperadas. Até que finalmente pergunta se verá Lenora novamente.

Seus dedos tremiam agora.

— E a resposta vem. “Nunca mais.” Augusto permaneceu calado.

— Aquilo — disse Baltazar — é o som da eternidade.

A luz do bar piscou. Uma vez. Duas. Depois estabilizou. O garçom desaparecera. Nenhum dos dois percebeu imediatamente.

Augusto coçou a barba.

— Ainda prefiro “O Gato Preto”.

Baltazar sorriu com estranha tristeza.

— Claro que prefere.

— Porque é humano.

— Não — respondeu Baltazar. — Porque você tem medo de enlouquecer.

Augusto estreitou os olhos.

— E você prefere “O Corvo” porque teme o luto.

Baltazar não respondeu.

Por alguns segundos, ouviu-se apenas a chuva.

Então Augusto franziu a testa.

— Aliás… falando nisso… você nunca me contou exatamente como sua esposa morreu.

Baltazar ergueu lentamente os olhos. E naquele instante algo mudou no ambiente.

O bar pareceu mais frio. Mais vazio. Mais distante.

— Ela não morreu — disse ele.

Augusto soltou uma risada nervosa.

— Ora, você mesmo disse no enterro— Então parou.

Seu rosto perdeu a cor.

— Espera…

Baltazar o observava sem piscar. Augusto começou a respirar depressa.

— O enterro…

As memórias vinham confusas. Chuva. Caixão fechado. Poucas pessoas.

Uma sensação terrível de náusea. Mas agora… agora percebia algo impossível.

Nunca vira o corpo. Nunca ouvira ninguém além de Baltazar mencionar a doença.

E, sobretudo… O enterro acontecera há quinze anos. Quinze anos. Com mãos trêmulas, Augusto ergueu os olhos.

— Baltazar…

O amigo permaneceu imóvel. Pálido demais. Silencioso demais. Então Augusto notou. Não havia reflexo dele na vidraça atrás da mesa. O trovão explodiu. As luzes se apagaram. E, na escuridão absoluta do bar, uma voz rouca sussurrou perto de seu ouvido:

— Nunca mais.

Quando as luzes voltaram, Augusto estava sozinho. A garrafa diante dele permanecia cheia. Dois copos. Mas apenas um continha marcas de uso. O garçom reapareceu atrás do balcão, como se jamais tivesse saído dali. Augusto levantou-se bruscamente.

— O homem que estava aqui comigo… onde ele foi?

O garçom o encarou com expressão estranha.

— O senhor chegou sozinho.

— Não… Baltazar… meu amigo…

O velho limpou lentamente o copo. Depois disse, quase num murmúrio:

— Baltazar de Alencar?

Augusto assentiu. O garçom empalideceu.

— Senhor… Baltazar morreu aqui nesse bar.

A chuva parecia agora um coro de sussurros contra os vidros.

— Há quinze anos. Exatamente nesta noite. Dizem que falava sozinho… discutindo sobre Edgar Allan Poe antes de cair morto na mesa do canto.

Augusto sentiu o sangue fugir do rosto.

— Não…

O garçom apontou lentamente para a parede atrás dele. Ali havia um retrato antigo e amarelado. Nele, um homem magro sorria discretamente para a câmera. Baltazar. Debaixo da fotografia, uma frase escrita à mão: “Tomado pelo delírio e pela saudade. Repetia sem parar a mesma palavra.” Augusto aproximou-se lentamente. E então leu a última linha. “Nunca mais.”

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

 

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