O homem da floresta – parte I

20/06/2026

 

 

Durante anos, ninguém soube ao certo por que Eduardo escolhera desaparecer do mundo. Quando se aposentou, vendeu a pequena casa que possuía na cidade, encerrou suas contas, despediu-se de poucos conhecidos e partiu para o interior, estabelecendo-se em uma região remota cercada por uma vasta floresta. Construiu ali uma cabana simples de madeira, próxima a um riacho de águas cristalinas, e passou a viver sozinho.

Os moradores dos povoados vizinhos criaram todo tipo de teoria. Alguns diziam que ele era um homem amargurado. Outros acreditavam que tivesse cometido algum crime no passado. Havia até quem jurasse que ele fugia de alguém. Mas Eduardo jamais se preocupou em desmentir qualquer história. Os dias passavam em silêncio. Ele acordava antes do nascer do sol, cuidava da horta, pescava no riacho, recolhia lenha e passava longas horas sentado na varanda observando a floresta.

A solidão parecia ser sua única companhia. E assim foi durante quase quinze anos. Até o dia em que Alberto surgiu. Alberto era um caçador amador. Trabalhava como vendedor numa cidade próxima e costumava aventurar-se na mata durante os fins de semana. Numa manhã de inverno, decidiu explorar uma área que nunca havia visitado. Foi um erro. Depois de seguir o rastro de um veado por várias horas, perdeu completamente a orientação. Tentou retornar, mas acabou entrando ainda mais fundo na floresta.

Ao cair da noite, começou a chover. Sem comida, sem abrigo e sem saber onde estava, Alberto vagou por dois dias. No terceiro, exausto e desidratado, caiu próximo a uma trilha escondida. Quando abriu os olhos novamente, estava deitado numa cama improvisada dentro de uma cabana. O cheiro de sopa quente preenchia o ambiente. Sentado próximo ao fogão, um homem de cabelos grisalhos observava as chamas.

Achei que não fosse acordar — disse o desconhecido.

Onde estou?

Em segurança.

Foi assim que Alberto conheceu Eduardo. Durante os dias seguintes, recuperou as forças. A princípio, as conversas eram breves. Eduardo respondia apenas o necessário. Mas Alberto possuía uma curiosidade natural e um jeito amigável que lentamente foi derrubando as muralhas construídas pelo velho eremita. Os dias transformaram-se em semanas. Como a região era difícil de atravessar e Alberto ainda não estava totalmente recuperado, permaneceu na cabana.

Com o tempo, os dois desenvolveram uma amizade inesperada. Conversavam sobre livros, sobre a vida, sobre os erros da juventude e sobre os sonhos que nunca realizaram. Alberto descobriu que Eduardo era um homem culto, gentil e dono de um humor discreto. Mas havia uma pergunta que permanecia sem resposta. Por que viver sozinho? Certa noite, enquanto a chuva tamborilava sobre o telhado, Alberto finalmente criou coragem.

Eduardo, por que você escolheu esta vida?

O velho permaneceu em silêncio por alguns instantes. Seu olhar ficou perdido no fogo da lareira. Então suspirou […]

 

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

MAIS Notícias
A taberna das horas mortas –  final
A taberna das horas mortas – final

A essa altura, estava claro que aquela figura idiossincrática estava envolta em mistérios; sua filosofia alicerçada aos grandes intelectuais da literatura e o seu modo de vida igualmente peculiar lhe conferiam uma atmosfera quase palpável. Senti um turbilhão de...

A taberna das horas mortas – parte I
A taberna das horas mortas – parte I

A taberna estava praticamente vazia quando cheguei, embora não fosse muito tarde. O dia tinha sido um daqueles que queremos esquecer no fundo de uma garrafa. Nós, os alcoólatras, afogamos dias assim, e, nos dias bons, celebramos com outra garrafa, amigo abstêmio que...

Um ser com sede?
Um ser com sede?

  A história – ou estória, se preferir – que irei relatar hoje, amigo leitor, ocorreu lá pelos saudosos idos da década de 1990. Finalzinho dela, na verdade, embora eu não saiba precisar o ano. Minha vó, que atualmente conta com 87 anos, foi quem relatou o...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *