O homem e sua debilidade

21/05/2022

‘‘Meu coração é um balde despejado’’, frase contida no impecável poema ‘‘Tabacaria’’, do Álvaro de Campos (heterônimo utilizado por Fernando Pessoa). Já um amigo meu, culto, fino escritor, diz algo como: ‘‘O coração de um homem é como o convés de um navio: está cheio de marcas, furos, avarias de toda sorte, causadas pelo tempo.’’

Já eu, fico com as duas proposições. No final, querem transmitir a mesma essência dolorosa do dissabor da desilusão, da derrocada, da senda findada. Foi bem assim que começamos um caloroso colóquio envolto em copos cheios, fumaça de cigarro e, de quando em quando, pilherias ardilosas. É assim que homens esquecem, ainda que por um átimo, as suas dores internas.

Trancafiamos os espíritos que nos atormentam no soturno sótão. É a nossa espécie de bacia das almas. Mas, nesse caso, o perdão não dissipa as fantasmagóricas experiências, que insistem em permanecerem no recôndito do nosso ser… E assim vamos vivendo… ou melhor, existindo…

Entretanto, caro leitor, o problema se faz medonho, insuportável quando somos acometidos por tais espíritos em circunstâncias em que o álcool e os amigos não se fazem presentes. E é na madrugada, sozinho… do nada, eles aparecem para nos visitar. Para fazer com que revivamos, no presente, o passado. As chagas, aqui, se abrem e o homem se vê em toda sua debilidade.

Na realidade, no meu caso, confesso que, certa feita, eu estava bebendo quando um espectro dessa estirpe acampou os umbrais da minha residência naquela fatídica e fria hora adiantada. Do vitral, avistei a mim mesmo. Era o reflexo do decrépito ser que o acaso me tornara. Era ela, na realidade, quem emulava a minha aparência.

Como se já não fosse o suficiente conviver com a saudade indescritível de um passado que jamais voltará, as alucinações evocadas – consciente ou inconscientemente – de agora me conduzem à loucura plena. Como se os momentos vividos e perdidos já não me atormentassem o suficiente, agora estou limitado a tão somente beber para esquecer o passado e para passar o presente, esperando a finitude futura.

Mas ainda há, todavia, uma válvula de escape: o tempo. Ele tudo ameniza, ainda que não apazigue de um todo a tormenta. Assim sendo, intercalamos o existir entre o tédio (dor) e o desespero proposto pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer. É a famigerada vida pendular. Embora eu saiba que muitos estão demasiadamente ocupados em demostrar o contrário, ou seja, uma vida plena e feliz, eu, decididamente, fujo de tal tolo e banal engodo. Jamais promoveria detestável hipócrita pretensa felicidade.

Já não sei ao certo se estou agora ébrio, vencido ou cansado… ou os três ao mesmo tempo. Encontro-me perdido em devaneios que se confundem com a realidade. Estou verdadeiramente apto para acordar? O espectro ainda está à porta? Ele sequer já esteve lá alguma vez? Jamais saberei ao certo. A confusão mental parece conduzir-me ao limbo irreversível. Mas sei que preciso beber… o quanto antes e sempre, beber! Com voracidade!

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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