O livro do filho – parte II

08/03/2025

O senhor fora acordado, no dia seguinte, cedinho, por uma fina neblina que caia em seu telhado. Por haver, ali, algumas goteiras, a água respingou em seu rosto. Disposto, feliz e revigorado pela experiência que teve no dia anterior, o velho tratou logo da sua higiene diária. Não queria perder tempo, embora ainda não soubesse o que iria escrever no livro.

Após o banho, para pedir orientação e guia divina, orou ao Senhor. Apesar de não sentir, em seu coração, uma manifestação direta do Criador, julgou que Deus age independente de sentirmos ou não a Sua presença. Ele não é dependente de nós, mas, ao contrário: somos nós dependentes d’Ele.

Ao se fazer no quarto do seu finado filho, no entanto, foi como entrar em uma espécie santuário. O clima era de santidade; não pelo filho, pois não convinha endeusar uma criatura, ainda que esta tenha partido, ao Criador. O prudente homem bem sabia amar o filho e o Pai, dando a devida importância a cada um, distinguindo o que é (foi) humano do que é divino.

Antes de pegar a pena, que guardara dentro do livro do filho, o velho resolveu abrir a Bíblia Sagrada, para pedir anuência divina.

‘‘Para tudo há uma ocasião certa; há um tempo certo para cada propósito debaixo do céu: Tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter, tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de jogar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz’’ – Eclesiastes 3,1-8

 

Refletiu sobre o trecho lido, escolhido ao acaso. E ideia de haver tempo para tudo, consolou um pouco mais o seu coração, pois considerou que o tempo do seu filho na Terra, não podia mais ser adiantado. A sua vida, de fato, expirou na hora que deveria. Não houve abreviação.

Sentado à pequena escrivaninha, livro aberto e pena na mão esquerda, o senil não sabia por onde começar e o que escrever. No entanto, quando deu por si, estava escrevendo memórias do que vivera com o seu filho. Escreveu, primeiramente, sobre o dia do seu nascimento.

O menino tinha sido concebido em 13 de dezembro de 1844. O velho, que na época era jovem, quando do ocorrido, estava trabalhando em uma fábrica têxtil – haviam muitas delas, por conta do comércio algodoeiro -, onde o seu patrão não autorizou a sua saída para que ele pudesse viajar e, com isso, visitar o seu rebento no hospital.

Sua esposa morreu alguns dias depois por conta de complicações oriundas do parto. Ele não chegou a vê-la mais com vida, pois a indústria onde trabalhava ficava muito longe da cidade onde residiam. Restou-lhe, portanto, quando chegasse, enterrar a sua amada esposa e criar o seu filho sozinho. Viveu a dor da partida da companheira e a alegria da chegada do seu filho. Neste instante, ao reviver estas lembranças e passá-las ao papel, caiu em prantos. Chorou até soluçar. Não imaginava que ainda existiam lágrimas destinadas à sua falecida mulher. Pensou já tê-las derramado durante os anos que se passaram; nas noites solitárias, nos dias corridos, enquanto tomava banho no banheiro da pequena casa […]

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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