O menino – parte II

18/10/2025

A senhora sorriu como se conhecesse cada segredo daquele nevoeiro. O vento passou entre as lápides com um som de páginas viradas.

— Não tens pressa, meu menino — disse ela. — Aqui tens tempo para ver. Vem comigo.

Seguiu-se um corredor de pedras onde as fotos nas lápides mudavam conforme eles passavam: crianças com olhinhos vivos, rapazes com ternos puídos, meninas de trança. Em cada fotografia, um pedaço de vida brilhava — risos, quedas, primeiras descobertas. O menino sentiu que aquelas imagens lhe amoleciam as feridas. Como se cada sorriso fosse um bálsamo que nunca o tinha alcançado em casa.

A mulher deteve-se diante de uma lápide em branco, lisa, sem inscrição. Tirou as mãos e, com a ponta dos dedos, traçou no mármore uma letra que o menino reconheceu sem nunca a ter visto: a primeira letra do seu próprio nome.

— Não — murmurou ele, as palavras saindo como se viessem de um outro lugar do corpo. — Não pode ser. Estou em casa. Estou na minha cama.

A senhora o olhou com ternura e uma paciência que doía.

— Estavas em tua cama. Estavas. Mas há portas que se abrem sem aviso. Não te amedrontes. Tu já vieste aqui antes, quando foste mais pequeno e perguntaste por que o mundo era tão duro. Hoje vieste de novo. E tens um caminho a escolher.

Naquela hora, o menino recordou flashes: o barulho das vozes, as correntes de ódio que o puxaram para o chão da escola, a face vermelha do colégio, a mão da mãe trêmula. Teve a sensação desconexa de ver a própria vida como a terceira pessoa vê um filme: muito perto para escapar, ao mesmo tempo distante.

— Que caminho? — sussurrou.

— Ficar — disse a senhora, como quem aponta a noite — ou voltar. Voltar não é simples. Não é regresso automático ao corpo que dói. Voltar é carregar algo que só podes ganhar aqui.

Ela abriu as mãos e, no espaço entre elas, apareceu uma pequena figura: não era o gnomo do livro, mas lembrava-o — olhos miúdos de brilho fosco, roupas que pareciam cortadas de frases, não de tecido. O menino sentiu um choque de reconhecimento tão forte que uma nova onda de lágrimas lhe escorreu.

 

 

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

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