O Ofício do Olhar

31/07/2026

No livro VII da República, Platão nos ensina a desconfiar de tudo aquilo que vemos. A alegoria, conhecida como O Mito da Caverna, é uma das mais belas da filosofia ocidental: “Eis que vemos seres humanos vivendo em uma caverna subterrânea; aqui estão desde a infância, com as pernas e o pescoço acorrentados, de modo que não podem se mover e só conseguem ver o que está à sua frente, pois as correntes os impedem de virar a cabeça. Acima e atrás deles, uma fogueira arde à distância […] e você verá, se olhar, um muro baixo construído ao alongo do caminho, semelhante à tela que os marionetistas usam diante de si, por cima da qual exibem bonecos”.

Como a evidenciar a complexidade da bela metáfora, no entanto, quem sabe enriquecendo-a, a própria filosofia se encarregou de relativizar o significado do olhar platônico, a dicotomia por ele estabelecida entre o mundo sensível e o mundo inteligível, entre a aparência e a realidade das coisas.

A fenomenologia, por exemplo, professaria que perceber a existência de algo é, por natureza, um ato de interpretação, um registro impreciso de memória.

Kant, ao reconhecer a distinção entre o que chama da “coisa-em-si” e a “coisa-como-aparência”, chama a atenção para a incompletude do nosso reconhecimento, uma vez que estamos expostos às fronteiras formais entre espaço e tempo, o que delimita a maneira como vemos as coisas e enxergamos o mundo.

Para Sartre, o filósofo existencialista francês, o olhar tem a função de nos mostrar o mundo, determinando a maneira como o compreendemos e ocupamos lugar diante dos seus desafios. Assim, a forma como nos vemos se reflete na forma como vemos o outro, e como somos vistos por ele.

Anos antes, Jean-Jacques Rousseau empregara o termo “Olhar” como uma metáfora que exprime a condição de uma sociedade em processo de degeneração, na qual os indivíduos submergem no domínio das aparências.

Sobre o olhar, é emblemática a frase do filósofo Nietzsche: “Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não se tornar também ele um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”. Está no livro “Além do Bem e do Mal”, e serve para nos advertir que, ao combater o mal ou examinar o vazio e as ideias destrutivas, corremos o risco de ser corrompidos e tragados por aquilo que combatemos.

Dostoiévski, o gênio da literatura russa, toma “O olhar” como espelho da consciência humana, palco onde se travam as lutas morais mais implacáveis. Para ele o olhar não se presta para julgar o mundo exterior, mas para revelar os escaninhos mais escuros e impenetráveis da própria mente.

Em “Crime e Castigo”, para recorrer a uma de suas obras mais consagradas, a punição não decorre da aplicação da lei, mas do peso insuportável da consciência. O sofrimento de Raskólnikov, personagem central da história, é que haverá de levá-lo a desistir de fugir de si mesmo e a olhar de frente para sua culpa e contradição.

Sob a perspectiva da psicanálise, “Olhar” e visão se irmanam na organização do aparelho psíquico, na pulsão escópica (o prazer de olhar e ser visto), manifestando-se, assim como na gênese dos sintomas, na exploração do mundo interior, a que define como “inconsciente”. Na histeria, afirma Freud, o olhar do outro e o desejo de ser visto atuam como elementos da encenação e retorno do material recalcado.

Entre nós, foi Machado de Assis quem produziu a metáfora desconcertante, “Olhos de Ressaca”, para descrever o poder de atração da mais complexa de suas personagens, Capitu, cujos olhos, enigmáticos e sedutores, tinham uma força que puxava para dentro, como fazem as ondas do mar em dia de ressaca.

“Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros […]”, diz Bentinho, como a querer, também ele, arrastar o leitor para o abismo da dúvida. Seu olhar, atravessado pelo ciúme, a enxergar indícios da traição improvável.

Nas Artes Plásticas, motor da criação e da recepção, “O Olhar” direciona a atenção do espectador, ressignificando motivos e motivações, descobrindo caminhos, desvendando mistérios e segredos, ampliando linhas de força, simbologias e significados ocultos. Foi assim, é assim, será sempre assim, do Barroco aos dias atuais, de Caravaggio a Botticelli, de David a Monet, Van Gogh, Matisse, Picasso, René Magritte: “Ceci n’est pas une pipe”.

Isto não é um cachimbo.

O olhar, como a câmera do cinema, movimenta-se em travellings e panorâmicas, enquadra, escolhe, fecha-se em closes bergmanianos, abre-se em plano geral, alonga-se em profundidade de campo.

O Olhar nunca é neutro ou imparcial; o olhar seleciona, escolhe, monta, acrescenta, subtrai — o olhar edita.

O olhar decide o que será levado ao ar. O olhar, este ser “humano, demasiado humano”, como está em Nietzsche, “é conversa perfeita”, “um espelho no qual desejamos ver nossos pensamentos refletidos do modo mais belo possível”. Eis o ofício do olhar.

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *