O Vela Negra (parte I)

25/04/2026

 

Mais um corpo fora encontrado por populares na outrora pacata cidade interiorana; era o terceiro homem assassinado em menos de três meses. Ao lado do corpo, como encontrado nos corpos dos outros, uma vela negra apagada, mas que indicava ter sido acesa, provavelmente após o crime, pelo serial killer.

Seria um ritual ocultista? Ou a cena pitoresca apenas sugeria isso para despistar a real causa? E quem seria o perpetrador sanguinário? E quais as suas motivações? Por que escolhera exatamente essas pessoas para assassinar? Ou seriam infelizes vítimas aleatórias?

Essas e outras questões eram as indagações que a polícia e a sociedade se faziam. O fato é que a população estava em polvorosa com o cenário de medo instaurado. Muitos já não mais saíam de suas casas, nem mesmo para trabalhar. Mulheres e crianças, então, não eram mais vistas nas ruas; apenas alguns corajosos homens se dedicavam à lavoura e ao comércio prejudicado da cidade.

O que se sabe até então:

Primeira vítima: Aroldo Lamartine (67 anos); viúvo; pai de dois rapazes (nenhum mora na cidade). Era serralheiro e vivia na zona rural. Seu corpo fora encontrado por populares, após buscas, apenas três dias após o crime, em um matagal fechado. Ao lado do defunto, uma vela negra. Até onde se sabe, não possuía desafetos. Frequentador da Capelinha Celestial, era tido como um homem religioso e simplório.

Segunda vítima: Jorge Vieira. Solteiro (42 anos), sem filhos. Profissional do comércio – tinha uma pequena venda de condimentos no centro da cidade. Uma senhora o encontrou estirado na calçada de sua residência cedo da manhã. Uma vela negra apagada, caída (provavelmente pelo vento noturno), também fora encontrada ao lado do corpo. Era tido como um sujeito taciturno e ranzinza, sem amigos ou parentes na cidade. Entretanto, também ele não possuía inimizades.

Terceira vítima: Julião de Silveira (39 anos). Havia chegado à cidade há apenas nove meses. Pouco se sabia sobre o sujeito. Apenas que era um boêmio e mulherengo, que se envolvia com mulheres comprometidas e solteiras. Sua forma de sustento era desconhecida. Tal estilo de vida do rapaz fazia com que as autoridades o considerassem alvo de muitos desafetos. Seu corpo fora encontrado, diferente dos demais, com um saco na cabeça. Todavia, o ritual fora mantido: uma vela negra ao lado do corpo.

Em comum, além da vela negra, era o fato de todos terem sido estrangulados: um com um fio elétrico, o outro com uma corda e o último com uma liga de borracha. Nenhuma testemunha, até então. Nenhum ponto em comum entre as vítimas fora percebido. Nenhum suspeito! Nenhuma linha a ser seguida.

O maníaco logrou êxito sem deixar qualquer rastro, ao que parece. O agora alcunhado Vela Negra era o terror dos cidadãos da pequena cidade. Não se sabia quando ele iria atacar novamente; se é que iria. Quantas vidas ele pretende ceifar, afinal? O clima de insegurança pairava por todos os lares. Mulheres receavam ficar viúvas. Filhos temiam pela orfandade. Já os homens não temiam por eles, mas pelos seus. Morrer pouco importa. O problema é deixar os entes queridos desolados após a partida[…]

Cauby Fernandes é contista, cronista, desenhista e acadêmico de História

MAIS Notícias
O Vela Negra (parte II)
O Vela Negra (parte II)

Resumo da parte I: Uma série de três assassinatos em uma cidade interiorana, onde todas as vítimas são encontradas com uma vela negra ao lado do corpo, sugerindo um possível ritual. Apesar das diferenças entre os mortos, todos foram estrangulados e não há pistas...

As luzes que se foram
As luzes que se foram

    ‘‘Seremos incompletos sem as lembranças da infância que vivemos’’ Osman Freitas   Era um fim de tarde em um tal colégio Amélia Figueiredo de Lavor, em 1998. O Sol baixava e as folhas secas dançavam ordenadas por um modesto vento. Eu fechava o meu caderno...

A última refeição
A última refeição

O dia amanheceu chovendo. O padre Elias, acusado de heresia pelo povo da sua própria comunidade e pela Igreja, orava ajoelhado junto a sua cama de alvenaria enlodada. Os dias eram difíceis para o macróbio. Não obstante a acusação indecorosa, ainda alguns poucos fieis...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *