Picasso, o estrangeiro*

08/03/2025

Tenho em mãos, no transcurso desses últimos dias, o belíssimo livro “Picasso, o Estrangeiro”, em que Annie Cohen-Solal, escritora, historiadora e professora da Universidade de Bocconi, de Milão, Itália, traça a mais original das biografias de Pablo Picasso. Como esteja a meio caminho entre o início e o final da obra, adio a pretensão de tecer sobre o livro de Solal minhas impressões, como disse, as mais positivas até aqui. De pronto, vêm à mente, no entanto, o impacto de visita minha à Espanha, mais particularmente ao Museu Picasso, em Barcelona, registrada em crônica que tomo a liberdade de reproduzir abaixo.

AMANTE DAS ARTES plásticas, sem ao menos imaginar que algum tempo depois viria a lecionar num Curso Superior de Licenciatura em Artes Visuais, quando procuraria refinar os meus parcos conhecimentos da pintura, sobremodo, deparo com uma das mais concorridas atrações turísticas de Barcelona, o Museu Picasso.

Localizado numa ruazinha estreita, dessas vielas típicas das cidades medievais, o museu abriga em torno de 3.000 peças de Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno Maria de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso (ufa!).

Fundado em inícios dos anos 1960, instala-se em cinco palácios na Carrer Montcada. O seu acervo, embora importante, não guarda muito do que se pode considerar mais expressivo da vastíssima produção do artista malaguenho, mas é considerável o que há de cerâmicas trabalhadas, desenhos e pinturas, além da série As Meninas, com que Picasso homenageia a obra-prima de Diego Velásquez.

O quadro do pintor barroco, imenso, 318 x 276 cm, que se encontra no Museu do Prado, é considerada uma das mais complexas realizações da arte ocidental. Descortina uma cena íntima da família de Filipe IV e exemplifica uma fase da pintura de Velásquez caracterizada pelas pinceladas soltas e pela exploração da luz como um dos efeitos mais expressivos de sua arte a um tempo prodigiosa e suave. Nela, aparecem a infanta Margarida e suas damas de companhia, bufões, uma anã e uma criança brincando com um cão. À esquerda, num tipo de autorretrato que entraria para história da arte como obra desafiadora e inquietante, o próprio pintor e, através da imagem refletida num espelho, o rei Filipe IV e a rainha.

Aqui, neste museu de Barcelona, temos a oportunidade de contemplar algumas das 44 peças da série realizada pelo artista catalão em releitura da obra de Velásquez. São quadros de inspiração cubista, através dos quais Picasso buscou alinhar a arte espanhola com as tendências então dominantes na Europa. As obras se prestam à perfeição para se analisar alguns dos aspectos estruturais e simbólicos de uma fase importante do pintor, a técnica intensa e vibrante, seu processo de criação artística inovador e extremamente pessoal.

Além dessa, que é a obra de maior significado no rico acervo do Museu Picasso, acompanho com atenção desenhos realizados pelo artista em fins do século XIX, e o famoso A Primeira Comunhão (1896), tida como a primeira grande obra daquele que é considerado por muitos o maior artista do século XX.

Uma amiga, entre curiosa e desinformada, pergunta-me onde se encontra a tela Mulher Chorando, sobre a qual eu tecera comentários na noite anterior. Observo-lhe que essa tela é de uma coleção particular, está em Londres, e, baixinho, inclinando ligeiramente a cabeça sobre seu ombro, repito os versos de Rafael Alberti: – “Se puede llorar piedras…” Ela me dá um tapa e, que nem menina, diz, “Bicho ruuuimm!!!”

À saída do museu, um grupo de amigos discute a possibilidade de irmos até Valência, que fica a meio caminho entre Barcelona e Madri. Fico exultante, esperançoso que a decisão a ser tomada tornasse possível o velho sonho de conhecer essa cidade em que viveu Ernest Hemingway, supostamente atraído pelas suas famosas touradas. É frustrada a minha esperança. Não seria sensato, uma vez que temos compromissos em Toulouse.

Málaga, a terra de Pablo Picasso, Sevilha, Cades, Granada, Córdoba, na Andaluzia, e Calanda, onde nascera Luis Buñuel, compõem o projeto de uma viagem futura.

Hoje, quando escrevo estas memórias, vem-me à mente a lembrança de que Valência seria, alguns anos desde a viagem à Espanha, cenário do filme A má educação, do cineasta Pedro Almodóvar.

E mais lamento, ainda, não ter ido a essa bela cidade da costa do Mediterrâneo.

 

*O título é uma referência ao livro “Picasso, o estrangeiro”, de Annie Cohen-Solal (Editora Record, 2024), sobre o qual escreverei na próxima coluna.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

 

 

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