Sem perder a ternura jamais

14/08/2021

Pediram-me duas linhas sobre Jorge Amado, que, nessa terça 10, faria 109 anos. Aqui vão, cumprindo a pauta do jornal e homenageando singelamente um dos poucos escritores de quem posso afirmar ter lido, rigorosamente, todos os livros, contando o Navegação de Cabotagem, autobiografia lançada em 1992.

Começo por um fato curioso: durante palestra de Gilberto Mendonça Telles, no auditório Castelo Branco, da UFC, faz isso muitos anos, tenho a sorte de sentar ao lado do escritor baiano, que tinha à sua esquerda a mulher Zélia Gatai.

Enquanto o conferencista fazia seus agradecimentos à universidade, concluindo a sua fala, sinto a mão pesada de Jorge Amado apertar-me o braço convidando-me, e à mulher, para “tomar um ar lá fora”.

Claro que o fez num gesto involuntário, sequer atentando para quem havia pouco sentara à sua direita. Quanto a mim, não me fiz de rogado. Segui o casal e compus, com ele, um trio que se pôs a conversar, descontraidamente, nos jardins da Reitoria, por um tempo que teve para mim a extensão da eternidade.

Estudante entusiasta de literatura, pelos vinte anos de idade, vivi ali os 15 minutos de fama de que nos falou Andy Warhol, não sem ter o cuidado de abrir a velha bolsa de couro e sacar dela um exemplar de Capitães da Areia em que guardo, na folha de rosto, a carinhosa dedicatória do casal.

Ler Jorge Amado é antes de tudo imensamente prazeroso. Poucos escritores brasileiros, Érico Verissimo talvez, terão sido capazes de escrever livros tão lúdicos e sedutores, o que por certo explica o fato de que foram, a seu tempo, os dois maiores sucessos editoriais do país.

O caso de Jorge Amado mais, pois que se trata do escritor brasileiro mais traduzido para outras línguas até que surgisse, anos depois, o fenômeno Paulo Coelho.

Estilisticamente identificado como integrante da geração de 1930, dentro da qual se produziu o que existe de mais representativo do que se convencionou chamar de neonaturalismo, Jorge Amado retira da realidade a matéria com que tece suas narrativas, mas o faz extrapolando as fronteiras do real para alcançar uma dimensão poética que transita com sublime habilidade entre o maravilhoso e o fantástico.

Seus romances têm, por isso, um sabor inconfundível, razão por que encantou e continua encantando leitores de diferentes países. Hoje, sua obra pode ser lida em meia centena de idiomas.

Mas, se a doçura do texto resulta no que se pode classificar como lúdico, isto é, numa literatura de entretenimento, não é sem relevo que se faz perceber nela o compromisso político.

Em muitos de seus romances mais importantes, a exemplo de verdadeiros épicos como Terras do Sem Fim, Jorge Amado explora as contradições de uma sociedade desigual e profundamente injusta, mostrando o que move um país onde o jogo de interesses e a insaciável busca de levar vantagem a qualquer custo, por parte dos mais ricos, ignoram os princípios éticos e humanos mais elementares.

Tudo isso, contudo, sem deixar de pôr em cena a resiliência do povo, sua força revolucionária, sua graça, sua malemolência e o seu jeito gostoso de tocar a vida. Não faz literatura panfletária, portanto, colocando-se à parte o não mais editado Subterrâneos da Liberdade.

Numa época em que o Brasil volta a viver o drama do obscurantismo, em que o Estado Democrático de Direito é pisoteado às claras, em que conquistas trabalhistas vêm sendo severamente suprimidas, os livros de Jorge Amado ressignificam-se, como numa reatualização do que existe neles de mais robusto e imorredouro: a coragem de denunciar o lado torto de nossa gente e o fascismo daqueles que nos governam.

Sem perder a ternura jamais, como quis um outro vibrante defensor da justiça e da liberdade.

 

Álder Teixeira é Mestre em literatura Brasileira e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais

MAIS Notícias
Encontro de velhos amigos
Encontro de velhos amigos

      Dia desses, entre surpreso e indignado, precisei dos trabalhos de uma advogada, que nem sempre saem ao gosto do leitor as coisas que escrevo aqui. É que homens públicos, afeitos às conveniências e aos elogios fáceis, o mais das vezes insinceros e...

As Boas Mulheres da China
As Boas Mulheres da China

    Vejo no jornal estatística atualizada da violência contra a mulher no Brasil. São números assustadores. Há coisa de uns muitos anos, uma amiga de Piracicaba recomendou que eu lesse “As Boas Mulheres da China”, da jornalista Xinran. Passado tanto tempo,...

Adeus a Cely
Adeus a Cely

“… a saudade dói como um barco/que aos poucos descreve um arco/e evita atracar no cais” (Chico Buarque) A última vez que nos vimos, faz algum tempo, foi num encontro casual, ela chegando e eu saindo de um shopping da cidade. Me falou sobre o que faria ali: “Vim à...

0 comentários

Enviar um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *